quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ESTUDO DA VELOCIDADE DO LIMIAR ANAERÓBIO EM CRIANÇAS QUE PRATICAM ATLETISMO


Estudo da velocidade do limiar anaeróbio em

crianças que praticam atletismo.

Publicação dia 31 de agosto de 2011.

Por Giliarde Maciel Feitosa

Giliarde Maciel Feitosa

Felipe Augusto S. P. de Souza

Diones Jose Alves de Queiroz

Daiane Pedrosa da Silva

Luciano Alencar Oliveira



Orientador: Dr. Jose Juan Blanco Herrera


*Alunos do curso de Educação Física da Universidade Católica de Brasília – UCB

** Professor orientador – Doutorado em Medicina – Professor da Universidade Católica de Brasília

(UCB) – UCB – DF – Brasil.

*** Ano: 10 de junho de 2009.

Resumo

Os objetivos principais desse artigo são fazer observações e considerações que, de alguma maneira, sejam interessantes para um direcionamento esportivo de crianças, avaliação do perfil atlético das mesmas além de suscitar discussões a respeito do período da maturação humana em que ocorre o distanciamento do ponto de vista físico e atlético. Para isso, elucidamos a questão da velocidade do limiar anaeróbio, bem como sucintamente definimos o que é o VO2Máx. Para isso foram analisados os dados coletados pelo laboratório LEFE da Universidade Católica de Brasília que diziam respeito a testes físicos realizados com crianças praticantes de atletismo e contrapostos com dados de crianças com idades semelhantes e jogadoras adultas de basquete, cuja velocidade crítica se assemelha com as crianças do estudo.


Palavras-chave: Velocidade crítica, Limiar anaeróbio, crianças, atletismo.




Introdução

Para falarmos da velocidade do limiar anaeróbio temos que ter algumas terminologias bem definidas para podermos de maneira clara e específica não cometer erros que podem comprometer entendimentos posteriores mais complexos segundo nosso estudo.

O que é o ácido láctico? É o produto resultante da atividade metabólica de certas células. Este sempre está presente já que o organismo humano, desde o estado de repouso, até as mais altas intensidades de exercício, recorre a seus sistemas de provisão de energia simultaneamente, pelo qual o ácido láctico era nocivo para a saúde e o rendimento físico. No entanto, na atualidade, investigações relativamente recentes demonstraram que este ator fisiológico não é tão negativo como se pensava e que o organismo possui uma série de mecanismos para mantê-lo sob controle e dar-lhe inclusive um destino útil (em muitos casos participa positivamente no complexo jogo do metabolismo energético).

A medida da concentração de lactato no sangue, como medida do grau de acidosis metabólica no organismo, baseia-se na idéia de que este valor guarda uma estreita correlação com o valor do lactato em músculo. Só parcialmente esta afirmativa é valiosa, já que o lactato precisa de um tempo mínimo de difusão dos músculos para o sangue, e depois nela pode ser neutralizada pelos mecanismos tampão ou “buffer” (bicarbonato, hemoglobina, proteínas plasmáticas). Também o ácido láctico pode ser utilizado como combustível energético pelo coração e os músculos que estão em atividade. Dito de outra forma, existem vários caminhos proveitosos para o lactato, que auxiliam a sua remoção do sangue circulante, o que determina que sua concentração final no sangue seja resultado da difícil equação na qual participam principalmente dois fatores: a velocidade de produção e o ritmo ou velocidade de remoção (http//:www.lactate.com apud Orrego, 2004).

Para os profissionais da área de treinamento e até mesmo treinadores de crianças, saber o limiar anaeróbio de seus alunos é de grande valia, com esse dado em mãos pode-se montar um treinamento mais próximo da realidade física, aos limites do corpo de cada um além de, no caso das crianças, escolher a modalidade desportiva mais adequada às mesmas.

Diferentemente do que se pensa a nível de senso comum, o lactato sanguíneo pode ser mensurado de maneira indireta, por métodos não-invasivos, como é o caso do Teste V170. Com esse teste aplicado de acordo com seus protocolos pode se chegar a números bem fidedignos de lactato sanguíneo no atleta. De acordo com Bozza, et al. (2006), podemos dizer que hoje em dia, a definição do limiar anaeróbio e do vo2max. são as principais ferramentas utilizadas para a predição do desempenho atlético de uma pessoa. Segundo Cardoso, et al. (2009), para predição de performance aeróbia temos o consumo máximo de oxigênio (VO2Máx), a máxima fase estável de lactato (MFEL) e o liminar anaeróbio (LAN).

Nas ultimas décadas o limiar anaeróbico tem sido alvo de diversas investigações dentro da fisiologia do exercício, uma vez que é um referencial extremamente interessante, superando inclusive o consumo máximo de oxigênio (VO2MÁX) para prescrição da intensidade do treinamento, controle dos efeitos do treinamento e predição do desempenho. Estudos realizados verificaram que o LAN apresenta boa validade para estimar a MFEL na corrida. Dentre os métodos para identificar o LAN destaca-se limiar de lactato (concentração fixa), limiar glicêmico, limiar ventilatório, limiar pela freqüência cardíaca e limiar anaeróbico individual. A velocidade crítica corresponde a uma intensidade limítrofe de esforço que pode ser mantida com estado estável de VO2MÁX e lactato.(Cardoso, et al., 2009)

O VO2 aumenta progressivamente e de maneira proporcional à intensidade de exercício. Num teste de esforço aumenta da primeira carga até as últimas cargas. Quando o teste é levado à exaustão verificamos que não ocorre aumento do VO2 na última carga, isso é um indicativo de que o Consumo Máximo de Oxigênio já foi atingido. Mesmo aumentando a carga o indivíduo não consegue consumir maiores volumes de oxigênio apesar de sua Ventilação Minuto ter aumentado. Essa é uma das características que mostra que o VO2 max. não é limitado pelo Volume de Ar Inspirado. Verificamos que quando o aumento de carga é progressivo, e sempre na mesma magnitude, o VO2 possui um aumento linear. (Silva, 2002).

Desta maneira, de posse da velocidade do limiar anaeróbio e o VO2 Máximo do indivíduo, podemos prever o momento da exaustão. Nas crianças, com os mesmos dados, podemos dar um direcionamento melhor para seu futuro atlético e também ajudar na busca por novos talentos.


Materiais e métodos


Dados anteriormente coletados pelo laboratório “LEFE” da Universidade Católica de Brasília nos foram fornecidos, além de análises de dados gerados por artigos coletados pelo grupo. No tocante aos dados da amostra da UCB tivemos 18 crianças avaliadas ao todo, sendo 9 do sexo feminino e 9 do sexo masculino com idade de 8,5 (DP 1,47). Do artigo “Perfil do Atleta Fundista da Seleção Chilena com Limiar Láctico” (Orrego, 2004) retiramos dados referentes ao Limiar anaeróbio dos atletas, desvio padrão e número de voluntários. Para chegarmos às conclusões sobre o perfil e sobre as diferenças entre os grupos utilizamos o Teste de Hipótese.





Análises sobre o tema


A velocidade do limiar anaeróbio pode, e deveria ser utilizado, para definir a modalidade esportiva ou a posição tática da criança futuro atleta. De acordo com estudos anteriores, verificamos a ocorrência de maiores limiares anaeróbios e maiores VO2 máximos em praticantes de atletismo das provas de fundo, em laterais e meio campistas do futebol, alas e armadores no basquete, nadadores de provas longas (acima de 400 metros). Franciscon (2006) nos elucida que, cada modalidade tem sua particularidade, no caso dos esportes coletivos cada posição é ainda mais particular no que tange às aptidões físicas de seu atletas.

O treinamento específico para cada posição nas modalidades coletivas vem sendo cada vez mais utilizado. Barros e Guerra (2004) afirmam que o futebol caracteriza-se pela realização de esforços de alta intensidade e curta duração, interposto por períodos de menor intensidade e duração variada. Desta maneira, pode se conceituá-lo como atividade de natureza essencialmente intermitente e acíclica.

Com relação ao basquetebol encontramos características parecidas, ou seja, é um esporte acíclico, porém com menos intensidade, de uma maneira geral o atleta de basquetebol tem VO2 Máximo e Velocidade Crítica menores que a do jogador de futebol. Alguns fatores flagrantes contribuem para esse fato, os intervalos técnicos (até 10 por jogo), as medidas de uma quadra oficial, 26 x 15 metros contra na média 75 por 100 metros de um campo de futebol e a constante troca de jogadores com substituições ilimitadas.

Falando sobre as provas de fundo do atletismo temos aspectos distintos às duas modalidades acima citadas, nesses atletas temos os maiores Vo2 Máximos e limiares Anaeróbios possivelmente dentre todos os atletas.






Tabela 1: Diferenças entre VO2 Máximo e Velocidade Crítica Média (VCM) em atletas profissionais do sexo masculino.

Modalidade

Vo2 Máximo

VCM

Idade

Indivíduos

Fut. (Laterais)

61,12

(DP 5,33)

14,33

(DP 0,66)

22,08

(DP 8,28)

25

Fundistas

76.78

(DP 2.52)


19.00

(DP 0,81)



24.33

(DP 3.83)

6

Basquete

51,10

(DP 1,50)

12,64

(DP 0,74)

23, 6

(DP 4,3)

7


Nesse contexto, a comparação mais próxima o possível com a velocidade do limiar anaeróbio dos atletas infantis de atletismo cujos dados nos foram disponibilizados pelo LEFE é com uma pesquisa de 2001 feita em 9 atletas do sexo feminino da modalidade de basquetebol e com um artigo também de 2001 sobre os Efeitos da Idade na Aptidão Física em Meninos Praticantes de Futebol de 9 a 15 Anos. Nesse segundo estudo houve a separação em 3 grupos: 9.50 a 11.49 anos, 11.50 a 13.49 anos e 13.50 a 15.49 anos. Vamos nos ater a faixa que mais nos interessa, a que mais se assemelha com a média de idade de nossa amostra, que é a de 9.50 a 11.49 anos de idade.


Tabela 2: Apresenta os resultados de Velocidade Crítica Média (VCM) de três modalidades diferentes:

Modalidade

VCM (Km/h)

Idade (anos)

Indivíduos

Atletismo (UCB)

8,85

8,5

18

Basquetebol

10,77

20,5

9

Futebol

9,3

10,5

18





Conclusão


Com os dados disponíveis fica difícil precisar ou fazer afirmações acerca do tema. Com base na pouca idade dos voluntários de atletismo e seus excelentes números de VO2 Máximo e boa Velocidade Crítica, comparados com os meninos do futebol e as mulheres do basquetebol podemos crer que neste grupo temos potenciais atletas de futuro no atletismo, sobretudo para as provas de fundo.

Além disso, é interessante notar que não há diferença significativa na Velocidade Crítica entre meninos e meninas nessa faixa etária. O Teste de Hipótese aplicado sobre média e desvio-padrão dos grupos, com Índice de Confiança de 95% e p= 0,33 tem como resultado Hipótese Nula (Z = 0,96). Diante disso pode se supor que o distanciamento que ocorre na velocidade crítica entre os sexos começa a partir do início da puberdade. O mesmo teste feito sobre a velocidade crítica de atletas adultos da seleção chilena de atletismo aponta diferenças significativas entre homens e mulheres, com confiabilidade de 99% temos a hipótese alternativa, a velocidade crítica de homens e mulheres é diferente, com Z = 8,52.


Referências bibliográficas


ALVES, Daniel Medeiros. Futebol: metodologia de treinamento utilizada na equipe juvenil do Progresso F. C. Revista Digital. Buenos Aires, Año 11, nº 99. Agosto de 2006.


BARROS, de Leite Turibio e GERRA, Isabela. Ciência do Futebol . Barueri, SP: Manole, 2004.


BOZZA, Rodrigo, CAMPOS, Wagner de, MASCARENHAS, Ítalo Quenni Araujo de, NETO, Antonio Stabelini, VASCONCELOS, Luís Paulo Gomes, ULBRICH, Anderson Zampier. A velocidade crítica como preditor de desempenho aeróbio em crianças. Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano. 2006.


CARDOSO, Marcelo, CRESCENTE, Antônio Luís, FILHO, Lago do Alves Júlio, ROCHA, Schonhorst Anneliese, SANTOS, dos Rosa Fábio e SIQUEIRA, Donizete Osvaldo. Efeito da Maturação Biológica sobre a potência anaeróbia e aeróbia em jovens praticantes de futebol. Brazilian Journal of Biomotricity, v. 3, n. 1, p. 76-82, 2009.


DENADAI, Benedito Sérgio, GRECO, Coelho Camila e DONEGA, R. Marta. Comparação entre a velocidade de limiar anaeróbio e a velocidade crítica em nadadores com idade de 10 a 15 anos. Revista Paulista Educação Física, São Paulo, julho/dezembro 1997.


FRANCISCON, Clóvis Alberto. Introdução à preparação física. 2006 (citado em 5 de junho de 2009). Disponível na WorldWideWeb: HYPERLINK "http://www.fpb.com.br/downloads/medicina/Artigo%201-%20Prepara%C3%A7%C3%A3o%20F%C3%ADsica.htm" http://www.fpb.com.br/downloads/medicina/Artigo%201-%20Prepara%C3%A7%C3%A3o%20F%C3%ADsica.htm.


SILVA, Alex. Fisiologia do Exercício - Algumas considerações sobre limiar anaeróbio. Apostila Limiar Anaeróbio. 2002. (citado em 3 de junho de 2009). Disponível na WorldWideWeb: HYPERLINK "http://www.saudeemmovimeno.com.br" www.saudeemmovimeno.com.br


ORREGO, Pedro Catalán. Perfil do atleta fundista da seleção chilena com Limiar Láctico. Campinas, SP, 2004.












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