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Caso Eike põe em xeque apoio do BNDES a mega grupos nacionais
Por BBC Brasil
09 de julho de 2013
O colapso do grupo EBX, do magnata brasileiro Eike Batista, põe em xeque
as políticas de apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) em relação a grandes grupos nacionais.
Essa é a avaliação tanto de Aldo Musacchio, professor da Harvard
Business School, quanto de Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisas
Econômicas Aplicadas (IPEA), que vêm estudando as práticas e escolhas do banco
e seus efeitos sobre a economia brasileira.
"É impressionante ver como algumas das escolhas feitas pelo BNDES
(no apoio ao que vem sendo chamado) de 'campeões nacionais' não estão obtendo
os resultados esperados", diz Musacchio.
"E o grupo EBX é apenas o último exemplo disso. Com todos os
protestos contra a corrupção e esse debate sobre os custos dos estádios (da
Copa), parece problemático o fato de o banco ter arriscado bilhões nesse
grupo."
O EBX - conglomerado que inclui a petrolífera OGX, a produtora de
energia MPX, o estaleiro OSX, a mineradora MMX e outras empresas - era um
cliente preferencial do BNDES.
Segundo informações do banco, o total de empréstimos contratados pelo
grupo nos últimos anos foi de R$ 10,4 bilhões de reais. o suficiente para pagar
por todos os estádios da Copa.
O valor inclui os recursos que o banco se comprometeu a emprestar a
Eike, mas não desconta o que já foi pago e o que ainda não foi desembolsado. O
BNDES se recusa a revelar quanto o grupo efetivamente lhe deve alegando sigilo
bancário, mas diz que sua exposição a EBX é "pequena" e Eike teria
oferecido "amplas garantias" aos empréstimos.
De acordo com um levantamento do banco Merryll Lynch feito com base nos
balanços das empresas, porém, tal exposição seria da ordem de R$ 4,9 bilhões –
o que faria do BNDES a instituição financeira mais exposta ao grupo.
Além disso, o BNDESPar, braço de participações acionárias do banco, tem
pequenas participações na SIX (33,02%), MPX(10,34%), CCX (11,72%), MMX (0,66%)
e OGX (0,26%), em um total de mais de R$ 500 milhões.
Fortuna
Eike era, em março de 2012, o oitavo homem mais rico do
mundo segundo a agência Bloomberg, com um patrimônio estimado em US$ 34,5
bilhões (R$ 78 bilhões).
A desaceleração chinesa, a perda de vigor do PIB brasileiro e uma série
de problemas do grupo EBX, porém, fizeram com que suas empresas pouco a pouco
perdessem a confiança dos mercados.
Primeiro a OSX revisou suas metas de produção. A mineradora MMX teve
obras paralisadas no Chile e desistiu de projetos no país. Quando a petrolífera
OGX anunciou a inviabilidade comercial de seus poços da Bacia de Campos, na
semana passada, as ações de algumas empresas do conglomerado caíram em queda
livre e começou-se a falar em uma reestruturação total do grupo.
A fortuna de Eike encolheu para US$ 2,9 bilhões (R$ 6,5 bilhões).
"O problema do grupo EBX foi ter crescido rápido demais apostando
em um cenário muito otimista", diz Wilber Colmerauer, do Emerging Markets
Investments em Londres. Ou seja, Eike prometeu demais e entregou de menos.
Críticas
"É claro que não foi só o BNDES que se enganou com a EBX. Os bancos
e investidores privados também acreditaram em suas promessas de grandes
lucros", diz Almeida.
Para o especialista do IPEA, no entanto, a questão é que o BNDES faz
empréstimos com recursos públicos e juros subsidiados e, portanto, deveria ser
guiado por uma lógica diferente da usada pelo setor privado – o que não parece
ser o caso.
"Poderíamos ter investido os recursos (emprestados ou usados para
adquirir participações no grupo EBX) em setores que nos levassem a criar
tecnologias novas e não vão se desenvolver se não tiverem incentivos", diz
Almeida.
"É claro que também há riscos nessa opção, mas um risco justificado
pelos potenciais benefícios em termos de aprendizado, de mudança estrutural no
setor produtivo que ajudariam a diversificar a economia do país e lhe dar mais
perspectivas no longo prazo. Não vejo o que ganharíamos apoiando um grande grupo
como o EBX, que além de ser mais capaz de captar recursos no setor privado atua
em áreas em que o Brasil já é 'forte', já tem vantagens comparativas."
Musacchio, de Harvard, concorda com o diagnóstico.
"As grandes apostas do BNDES nos últimos anos têm sido em (empresas
que atuam na área de) commodities - petróleo, mineração, gás, carne congelada e
etecetera", diz ele.
"Isso quer dizer: o banco está apostando em setores que são muito
dependentes do crescimento do PIB chinês em um momento em que a China está
desacelerando. Mas se você conversa com produtores de equipamentos médicos, de
hard drive e outros (produtos de alto valor agregado) se dá conta que eles não
estão recebendo tanto apoio."
Pesquisa
Musacchio conta ter feito um estudo analisando os investimentos de
portfólio do BNDESPar desde 2008 e a conclusão foi de que sua performance, em
termos de retornos financeiros, foi muito fraca, "bem aquém da performance
da Bovespa em geral".
"Você pode argumentar que o objetivo do BNDES não é maximizar seus
lucros", diz o economista. "O problema é que nossos estudos têm
mostrado que eles também não têm investido ou emprestado dinheiro para as
empresas que mais precisam (por não terem recursos próprios para investir ou
fontes de financiamento alternativa). E supostamente, isso ocorreria porque
eles estariam escolhendo empresas com boas performances e resultados (Para
reduzir seus riscos)."
Já Colmerauer é menos crítico. Para ele, apesar de algumas apostas
erradas, nos últimos anos o BNDES também ajudou a criar grupos nacionais que
seriam "estrelas do mercado, como a Brazil Foods (resultado da fusão da
Perdigão com a Sadia)."
Ele diz que os problemas da empresa de Eike de fato têm gerado grande
apreensão nos mercados e agora há uma corrida para entender até que ponto os
bancos públicos – e em especial o BNDES – poderiam ser atingidos por suas
repercussões.
"Trata-se de um ciclo vicioso: o pessimismo em relação à economia
brasileira faz com que seja mais difícil para Eike conseguir novos empréstimos
e reestruturar suas empresas e ao mesmo tempo, o colapso do valor de mercado de
seu grupo ajuda a ampliar o pessimismo das expectativas sobre o país."
Texto em PDF:
Disponível em < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/07/130705_eike_campeoes_nacionais_ru.shtml
> Acesso dia 10 de julho de 2013.

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