Ciência
– Mundo Cientifico –
Cientistas 'degustam' o primeiro
hambúrguer de laboratório do mundo
Por BBC Brasil
05 de agosto de 2013
O primeiro hambúrguer feito em laboratório foi
apresentado e degustado nesta segunda-feira, numa conferência científica em
Londres.
Cientistas holandeses utilizaram células retiradas de uma
vaca para reconstituir os músculos de carne bovina, que foram combinados a
outros ingredientes para fazer o hambúrguer.
Os pesquisadores dizem que a tecnologia poderia ser uma
forma sustentável para suprir a crescente demanda por carne.
Mas críticos da ideia dizem que comer menos carne seria o
jeito mais fácil para compensar a já prevista falta de comida no mundo.
Modo de fazer
1. Os cientistas começam extraindo extraindo células do músculo de uma
vaca.
2. No laboratório, as células são colocadas numa cultura
- solução - com nutrientes para promover o
crescimento e multiplicação das células.
3. Três
semanas depois, as mais de um milhão de células-tronco geradas são divididas e colocadas em
recipientes menores.
4. As
células já crescidas se transformaram em pequenas tiras de músculo de
aproximadamente um centímetro de
comprimento e apenas alguns milímetros de espessura (foto).
5. As pequenas tiras são então coletadas e juntadas em
pequenos montes, que
então são congelados.
6. Quando alcançam uma quantidade suficiente, elas então
são descongeladas e
compactadas na forma de um hambúrguer antes de serem cozidas.
7. O primeiro hambúrguer testado também leva açafrão, caramelo e suco
de beterraba para dar
cor e sabor.
Receita: Universidade de Maastricht
Segurança alimentar
A BBC obteve acesso exclusivo ao laboratório em que o
projeto para produzir a carne foi implementado ao custo de cerca de R$ 750 mil.
Na Universidade de Maastricht, na Holanda, a pouco mais
de 200 km da capital Amsterdã, o cientista à frente do experimento destaca a
preocupação ambiental do estudo.
"Vamos apresentar ao mundo o primeiro hambúrguer
feito em laboratório a partir de células. Estamos fazendo isso porque a criação
animais para abate não é boa para o meio ambiente, não vai suprir a demanda
mundial (por comida) e também não é boa para os próprios animais",
ressalta Mark Post, professor da Universidade de Maastricht.
Para Tara Garnett, que é chefe da Food Policy Research Network (um centro de pesquisas da área de
alimentos) da Universidade de Oxford, na Inglaterra, os tomadores de decisão
precisam olhar além das soluções técnicas na área de segurança alimentar.
"Nós temos uma situação onde 1,4 bilhão de pessoas
no mundo ficam obesas da noite para o dia e, ao mesmo tempo, um bilhão de
pessoas no mundo todo vão para a cama com fome", ressalta.
"Isso é simplesmente estranho e inaceitável. As
soluções não se estabelecem na produção, mas na mudança dos sistemas de
suprimento e acesso, com barateamento. E mais e melhores alimentos para pessoas
que precisam deles", critica.
A receita
As células-tronco são as "mestres" do corpo
humano, que podem se desenvolver em tecidos em diversas formas, tais como
nervos e pele.
A maioria dos centros de pesquisa atuando nessa área de
estudos tenta reproduzir tecidos humanos que possam ser usados para
transplantes, reparando danos em músculos, nervos e cartilagem.
Os cientistas da Holanda querem utilizar técnicas
similares para produzir músculo e gordura dos alimentos.
Tradicional x de laboratório
Um estudo independente revelou que a carne produzida em
laboratório usa 45% menos
energia para ser feita do
que a média utilizada para a produção a partir de animais criados em fazendas.
O método também
significa 96% menos emissões de gás na
atmosfera e necessita 99%
menos terra.
Fonte:Environment, Science & Tecnology Journal
O professor Mark Post começou extraindo células do
músculo de uma vaca. No laboratório, as células são colocadas numa cultura -
solução - com nutrientes para promover o crescimento e multiplicação das
células.
Três semanas depois, as mais de um milhão de células-tronco
geradas são divididas e colocadas em recipientes menores onde elas se tornam
pequenas tiras de músculo de aproximadamente um centímetro de comprimento e
apenas alguns milímetros de espessura.
As pequenas tiras são então coletadas e juntadas em
pequenos montes, que então são congelados. Quando alcançam uma quantidade
suficiente, elas então são descongeladas e compactadas na forma de um
hambúrguer antes de serem cozidos.
Tem gosto bom?
Os cientistas tentaram recriar a carne, que inicialmente
tinha a cor branca, da maneira mais autêntica possível.
A professora Helen Breewood, que atua com Post nos
estudos, vem tentando fazer com que o músculo criado em laboratório fique
vermelho adicionando um composto existente na carne de verdade chamado
mioglobina.
"Se não se parece com a carne normal, se não tem
gosto de uma carne normal, não se tornará viável", afirma Breewood.
No momento, porém, este é um trabalho em progresso. O
hambúrguer a ser apresentado hoje foi colorido com suco de beterraba. Os
pesquisadores também adicionaram farinha de pão (ou farinha de rosca), caramelo
e açafrão, que ajudam no sabor.
"Vamos apresentar ao mundo o primeiro hambúrguer feito em
laboratório a partir de células. Estamos fazendo isso porque a criação animais
para abate não é boa para o meio ambiente, não vai suprir a demanda mundial
(por comida) e também não é boa para os próprios animais"
Mark Post,
chefe da pesquisa
Até o momento, os cientistas podem apenas produzir
pequenos pedaços de carne por vez. Quantidades maiores iriam requerer um
sistema circulatório para distribuir nutrientes e oxigênio.
Os primeiros resultados sugerem que o hambúrguer não terá
gosto tão bom, mas Breewood espera que ele tenha um sabor "bom o
bastante".
Sofrimento animal
A pesquisadora Helen Breewood, apesar de atuar no projeto
para produzir carne em laboratório, é vegetariana e acredita que a produção de
carne gasta muitas fontes de energia. Ela afirma que se comesse carne, iria
preferir a feita em laboratório.
"Muita gente considera carne feita em laboratório
repulsiva num primeiro momento. Mas se eles soubessem o que acontece nos
abatedouros para a produção de carne normal, também achariam repulsivo",
ressalta.
Numa nota, representantes do grupo Pessoas pela Ética do
Tratamento aos Animais (People for the Ethical Treatment of Animals - Peta) ressaltaram os benefícios da
carne de laboratório.
"(Carne de laboratório) irá favorecer o fim de
caminhões cheios de vacas, frango, abatedouros e fazendas de produção. Irá
reduzir a emissão de gases de carbono, economizar água e fazer a rede de
suprimento de alimentos mais segura", destacou a nota do Peta.
Mas a escritora especializada em alimentos Sybil Kappor
diz que sentiria dificuldades em comer a carne de laboratório.
"Quanto mais longe você vai do normal, de uma dieta
natural, mais corre riscos de saúde e outras questões", ressalta.
O último levantamento das Organização para Alimentação e
Agricultura das Nações Unidas sobre o futuro da produção de alimentos mostra
crescimento da demanda por carne na China e Brasil - e o consumo só não cresce
mais porque muitos indianos mantêm a dieta amplamente vegetariana por costume
cultural.
Assim, há o risco de que a carne produzida em laboratório
seja uma aparente solução, cheia de problemas.
Texto em PDF:
Disponível em <
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130805_hamburguer_laboratorio_gm.shtml
> Acesso dia 05 de agosto de 2013.

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