Ciência
– Mundo Cientifico –
Conheça remédios feitos a
partir de venenos
Por BBC Brasil
22 de outubro de 2013
Indústria farmacêutica usa venenos para ajudar em tratamentos de
saúde
Ela é a substância mais venenosa conhecida pelo homem. Pequenas doses,
em colheres, seriam suficientes para matar todo mundo na Grã-Bretanha. Alguns
quilos matariam todos os humanos no Planeta.
É tão perigosa que só pode ser fabricada em instalações militares, com
custo de US$ 100 trilhão por quilo.
Apesar de ser tão tóxica, esta substância está em altíssima demanda.
Muitas pessoas pagam grandes fortunas para injetá-la em suas testas.
Trata-se da toxina
botulínica – popularmente conhecida como Botox – que é produzida pela
bactéria que foi descoberta em uma fábrica de salsichas no século 18. O nome
"botulus" vem da palavra em latim para "salsicha".
Na escala de LD50 de grau de toxicidade – que mede a quantidade necessária
para matar metade das pessoas expostas ao produto – o Botox tem uma marca de
0.000001 mg/kg.
Ou seja, uma dose minuscula de 0,00007 mg (peso inferior a um milímetro
cúbico de ar) pode matar um homem de 70 kg.
A toxina botulínica mata suas vítimas causando falhas respiratórias. É
uma neurotoxina que entra nos nervos e destrói proteínas vitais. Isso
interrompe a comunicação entre nervos e músculos, o que pode levar meses.
Sua principal fama é a de evitar rugas em pessoas que estão
envelhecendo, ao destruir os nervos responsáveis por isso. As quantidades
usadas são minúsculas – de até um bilionésimo de grama – dissolvidas em uma
solução salina.
Mas o botox é muito mais do que
apenas um produto de vaidade. É extremamente útil para tratar várias condições médicas, de estrabismo a
enxaquecas, passando por suor em excesso e problemas de
bexiga.
Arsênico
O botox é apenas um exemplo de como venenos muito poderosos podem ser
usados para tratar problemas médicos.
Captopril, um remédio que combate a hipertensão e recebeu de US$ 1
bilhão em pesquisas para ser criado, foi feito a partir de venenos de cobras. A
exenatide, vendida com o nome de Byetta, é usada no combate a diabetes do tipo
2, e vem da saliva de um lagarto peçonhento.
Um veneno, em particular, mudou toda a história moderna da farmácia.
Na Grã-Bretanha vitoriana, a
indústria dos seguros de vida passou por um boom. Esse dinheiro fácil levou a um
salto no número de assassinatos, muitos deles por envenenamento.
Um dos casos mais conhecidos é o de
Mary Ann Cotton, uma mulher condenada em 1873 por diversos assassinatos. Ela
foi casada quatro vezes e três de seus maridos, todos com grandes planos de seguro,
morreram. O que sobreviveu foi o único que havia se recusado a fazer um seguro,
e acabou sendo abandonado por Mary Ann.
Dez dos filhos da britânica morreram de problemas gastrointestinais.
Para a "sorte" de Cotton, todos tinham seguros de vida.
Sua mãe, cunhada e amante também morreram, e em todos os casos ela era
beneficiária de seus planos. Um dos poucos a sobreviver, no círculo de Mary
Ann, foi o filho Charles, que foi repassado para um lar de crianças
abandonadas.
Charles morreu pouco depois de chegar ao lugar, e o dono do lar contatou
a polícia, que abriu uma investigação.
As autoridades concluíram que ela usou arsênico para envenená-lo.
Minerais com arsênico são quase imbatíveis no uso de venenos, pois eles não
possuem sabor, são diluíveis em água quente e são letais em quantidades
mínimas. No século 19, a substância era amplamente disponível para matar ratos.
A condenação de Mary Ann Cotton dependia da comprovação de que havia
traços de arsênico no corpo de Charles. Mesmo com a perícia forense ainda em
estágio inicial de desenvolvimento, foi possível fazer um teste com resíduos do
estômago e dos intestinos.
O exame foi positivo para arsênico e Cotton acabou executada por
enforcamento.
Uma onda de assassinatos semelhantes a estes levou à Lei do Arsênico,
que acabou se transformando na Lei da Farmácia de 1868. Isso especificou que
apenas farmacêuticos tinham direitos legais de vender venenos.
Foi destes envenenamentos e assassinatos que surgiu a base legal da
indústria farmacêutica que hoje usa venenos para ajudar na saúde.
Um derivado do arsênico, por exemplo, é usado hoje como agente
anticâncer.
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Disponível em <
Acesso dia 25 de outubro de 2013.

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