Ciência
– Mundo Cientifico –
Engenheiro se inspira em jardim na busca por cura para
próprio problema cardíaco
Por BBC Brasil
20 de novembro de 2013
Engenheiro Tal Golesworthy tratou o problema de sua aorta como se fosse
uma mangueira
O engenheiro britânico Tal Golesworthy está acostumado a desmontar as
coisas, detectar o que está errado e remontar tudo, resolvendo o problema. Mas
por mais de 30 anos, ele conviveu com um problema de saúde sem solução fácil.
Até que, inspirado em seu próprio jardim, combinou alguns dos
procedimentos básicos da indústria aeronáutica e desenvolveu uma solução
"bela e simples" para sua condição cardíaca, um dispositivo que
estabiliza uma veia do coração impedindo que se dilate em demasia.
Após achar a solução, ele conseguiu convencer médicos a implantá-la em
seu corpo. E nove anos depois da cirurgia, ele conseguiu ajudar outras 30 pessoas
com uma condição semelhante.
O engenheiro está fazendo um apelo a cirurgiões na Europa para que
comecem a testar seu aparelho em substituição a tratamentos mais convencionais.
Como uma
mangueira
Golesworthy tem a síndrome de Marfan, um distúrbio que provoca falhas
nos tecidos conectivos do corpo. Esses tecidos normalmente agem como suporte
para os órgãos principais, fazendo com que eles fiquem no lugar e no formato
certo.
As pessoas com essa síndrome têm problemas com seus olhos, juntas e
coração.
Quando o coração bate, fazendo o sangue fluir pelo resto do corpo, a
aorta – a principal veia – se expande para acomodar o fluxo. Na maioria das
pessoas, a aorta relaxa, e volta ao seu tamanho normal quando o fluxo diminui,
mas isso não acontece com as pessoas que sofrem a síndrome de Marfan. Nelas, a
aorta continua se expandindo, e fica cada vez maior, com o tempo.
Desde cedo na vida, Golesworthy sempre esteve ciente de que estava
convivendo com o risco de sua aorta expandir tanto que poderia explodir um dia.
Durante uma consulta médica em 2000, ele recebeu a recomendação de se submeter
a uma cirurgia preventiva.
Mas ele se disse pouco entusiasmado com essa perspectiva. A cirurgia
tradicional é complexa, e requer a substituição da aorta por uma veia
artificial. Às vezes os cirurgiões implementam válvulas de metal no coração.
Golesworthy não aceitou 'viver em um casulo de algodão' sem poder
praticar atividades arriscadas
Isso significa que ele teria que tomar remédios para o resto da vida
para deixar seu sangue mais fino, fluindo mais facilmente pelas veias. Esse
tipo de medicamento traz um risco grande, pois até mesmo um pequeno ferimento
com sangramento pode acabar se transformando em uma hemorragia.
Como Golesworthy é muito ativo – e gosta de esquiar – essa solução não
lhe pareceu boa o suficiente.
"Eu não queria viver a minha vida dentro de um casulo de algodão, e
pensei que eu próprio poderia inventar algo menos invasivo e complexo, que não
exija que parte do meu coração seja removida", diz.
Sua solução partiu de um pensamento bastante direto.
"Se a mangueira no jardim está cedendo, ela ganha um revestimento
de fita adesiva. É rústica e simples, e todos nós já fizemos isso no nosso
jardim."
Convencer os médicos não foi fácil. Mas ele conquistou a confiança dos
médicos londrinos Tom Treasure, do Guy's Hospital London, e John Pepper, Royal
Brompton Hospital.
O processo foi aperfeiçoado ao longo de três anos. O resultado foi um
revestimento colocado dentro – e não fora – da aorta, pois a cirurgia seria
mais simples.
Golesworthy foi o primeiro paciente a testar o método. Ele conta que o
dia da cirurgia foi o mais assustador de toda a sua vida.
"Passei toda a minha vida profissional administrando vários
projetos, mas claro que esse era completamente diferente. Era eu quem estaria
na mesa de operação desta vez."
A cirurgia no hospital Royal Bormpton durou duas horas. Há nove anos, a
aorta do engenheiro parou de crescer.
"De repente, minha aorta ficou estável, e comecei a respirar
facilmente, dormir bem e relaxar como não fazia há anos."
Desde a experiência, outras 30 pessoas já receberam a inovação em
Londres.
Como outras cirurgias, ela tem muitos riscos. A maioria das pessoas se
adaptou bem à novidade, mas houve o caso de um paciente que morreu.
O jogador de futebol Andrew Ellis se beneficiou da criatividade de
Golesworthy. Aos 27 anos de idade, Ellis disse que teve medo de se submeter a
um procedimento médico testado em um número tão pequeno de pessoas, mas agora
ele se diz contente por ter aceitado fazer a operação.
Cinco anos depois da cirurgia, ele segue saudável
e
em forma. Ele diz que se sente "como uma pessoa que não tem problemas cardíacos".
Texto em PDF:
Disponível em < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/11/131120_coracao_jardim_dg.shtml
> Acesso dia 20 de novembro de 2013.

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