Ciência
– Mundo Cientifico –
Pesquisadores alertam para expansão de
transgênicos e agrotóxicos no Brasil
Por BBC Brasil
10 de janeiro de 2014
O pedido para a liberação de sementes
transgênicas de
sojae milho resistentes ao herbicida 2,4-D esquentou o debate sobre a
regulamentação de plantas geneticamente modificadase agrotóxicos na
agricultura brasileira.
Pesquisadores e o Ministério
Público Federal (MPF) solicitaram em dezembro à Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança (CTNBio), encarregada de analisar pedidos de vendas de
transgênicos, que suspendesse os trâmites para a autorização das sementes
tolerantes ao 2,4-D, um herbicida usado contra ervas daninhas que consideram
nocivo à saúde.
Eles dizem que a liberação desses transgênicos poderá multiplicar de
forma preocupante o uso do 2,4-D no Brasil.
Paralelamente, cobram maior rigor dos órgãos
reguladoresna liberação tanto de agrotóxicos quanto de transgênicos e alertam para
a associação entre esses dois produtos no país.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil é hoje o maior
consumidor global de agrotóxicos. O mercado brasileiro de transgênicos também é
um dos maiores do mundo. De acordo com a consultoria Céleres, quase todo o
milho e a soja plantados no país hoje são geneticamente modificados.
Especialistas ouvidos pela BBC Brasil dizem que a expansão dos
transgênicos estimulou o mercado de agrotóxicos no país, já que grande parte
das sementes geneticamente alteradas tem como principal diferencial a
resistência a venenos agrícolas. Se por um lado essa característica permite
maior controle de pragas, por outro, impõe riscos aos consumidores, segundo os
pesquisadores.
Agente laranja
No centro do debate, o herbicida 2,4-D é hoje vendido livremente no
Brasil e utilizado para limpar terrenos antes do cultivo.
Pesquisadores dizem que estudos
associaram o produto a mutações genéticas, distúrbios hormonais e câncer, entre
outros problemas
ambientais e de saúde. O 2,4-D é um dos componentes do agente laranja, usado como desfolhante
pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.
O MPF pediu à Anvisa (Agência
Nacional de Vigilância Sanitária) que acelere seus estudos de reavaliação da licença
comercial do 2,4-D. O órgão quer que o resultado da reavaliação da Anvisa,
iniciada em 2006, embase a decisão da CTNBio sobre os transgênicos resistentes
ao produto.
Já a Dow AgroSciences, que fabrica o
agrotóxico e é uma das empresas que buscam a liberação dos transgênicos
associados a ele, diz que os produtos são seguros. Em nota à BBC Brasil, a
empresa afirma que "o 2,4-D é um herbicida que está no mercado há mais de
60 anos, aprovado em mais de 70 países".
O herbicida teve o uso aprovado em reavaliações recentes no Canadá e nos
Estados Unidos. Segundo a Dow, trata-se de uma das moléculas mais estudadas de
todos os tempos, gerada após mais de uma década de pesquisa e com base nas
normas internacionais de segurança alimentar e ambiental.
Agrotóxicos
combinados
O pedido para a liberação das sementes resistentes ao 2,4-D reflete uma
prática comum no mercado de transgênicos: a produção de variedades tolerantes a
agrotóxicos. Geralmente, assim como a Dow, as empresas que vendem esses
transgênicos também comercializam os produtos aos quais são resistentes.
"É uma falácia dizer que os transgênicos reduzem o uso de
agrotóxicos", afirma Karen Friedrich, pesquisadora e toxicologista da
Fiocruz.
Friedrich cita como exemplo a liberação de soja transgênica resistente
ao agrotóxico glifosato, que teria sido acompanhada pelo aumento exponencial do
uso do produto nas lavouras.
Caso também sejam liberadas as sementes resistentes ao 2,4-D, ela estima
que haverá um aumento de 30 vezes no consumo do produto.
Segundo a pesquisadora, o 2,4-D pode provocar dois tipos de efeitos
nocivos: agudos, que geralmente acometem trabalhadores ou pessoas expostas
diretamente à substância, causando enjôo, dor de cabeça ou até a morte; e
crônicos, que podem se manifestar entre consumidores muitos anos após a
exposição a doses pequenas do produto, por meio de alterações hormonais ou
cânceres.
O médico e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Wanderlei Pignati, que pesquisa os efeitos de agrotóxicos há dez anos, cita
outra preocupação em relação aos produtos: o uso associado de diferentes
substâncias numa mesma plantação.
Ele diz que, embora o registro de um agrotóxico se baseie nos efeitos de
seu uso isolado, muitos agricultores aplicam vários agrotóxicos numa mesma
plantação, potencializando os riscos.
Pignati participou de um estudo que monitorou a exposição a agrotóxicos
pela população de Lucas do Rio Verde, município mato-grossense que tem uma das
maiores produções agrícolas do Brasil.
A pesquisa, diz o professor, detectou uma série de problemas, entre os
quais: desrespeito dos limites mínimos de distância da aplicação de agrotóxicos
a fontes de água, animais e residências; contaminação com resíduos de
agrotóxico em todas as 62 das amostras de leite materno colhidas na cidade; e
incidência 50% maior de acidentes de trabalho, intoxicações, cânceres,
malformação e agravos respiratórios no município em relação à média estadual
nos últimos dez anos.
O pesquisador defende que o governo federal invista mais no desenvolvimento
de tecnologias que possam substituir os agrotóxicos – como o combate de pragas
por aves e roedores em sistemas agroflorestais, que combinam a agricultura com
a preservação de matas.
Já a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) diz que os
agrotóxicos (que chama de produtos fitossanitários) são imprescindíveis para
proteger a agricultura tropical de pragas e ervas daninhas, assim como para
aumentar a produtividade das lavouras.
Cabo de guerra
Pesquisadores e o MPF também querem maior rigor dos órgãos que analisam
pedidos de liberação de agrotóxicos e transgênicos.
A liberação de agrotóxicos exige aprovação da Anvisa (que analisa
efeitos do produto na saúde), do Ibama (mede danos ao ambiente) e do Ministério
da Agricultura (avalia a eficiência das substâncias).
Cobrada de um lado por pesquisadores e médicos, a Anvisa é pressionada
do outro por políticos ruralistas e fabricantes de agrotóxicos, que querem
maior agilidade nas análises.
Ana Maria Vekic, gerente-geral de toxicologia da Anvisa, diz que há
várias empresas, entre as quais chinesas e indianas, à espera de entrar no
mercado brasileiro de agrotóxicos.
Ela diz que a falta de profissionais na Anvisa dificulta as tarefas da
agência. A irritação dos ruralistas tem ainda outro motivo: a decisão da
agência de reavaliar as licenças de alguns produtos.
As reavaliações, explica Vekic, ocorrem quando novos estudos indicam
riscos ligados aos agrotóxicos – alguns dos quais são vendidos no Brasil há
décadas, antes da criação da Anvisa, em 1999.
"Quando começamos a rediscutir produtos, passamos a ser um calo
para os ruralistas", ela diz à BBC Brasil.
Instatisfeitos, os representantes do agronegócio têm tentado aprovar
leis que reduzem os poderes da Anvisa na regulamentação de agrotóxicos.
"Fazemos o possível para nos blindar, mas a pressão é
violenta", diz Vekic.
Questionada sobre a polêmica em torno do 2,4-D, a CTNBio disse em nota
que voltaria a discutir o assunto em fevereiro.
Segundo a comissão, o plantio de transgênicos não impede a produção de orgânicos
ou de outras variedades de plantas.
A CTNBio disse ainda que não lhe compete avaliar os riscos de
agrotóxicos associados a transgênicos, e sim a segurança dos Organismos
Geneticamente Modificados.
Texto em PDF:
Disponível em < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/01/140108_transgenicos_pai_jf.shtml
> Acesso dia 10 de janeiro de 2014.

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