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Chute de
paraplégico na abertura do mundial de 2014
Por BBC Brasil
09 de maio de 2014
No dia 12 de junho, o Itaquerão será palco de dois
eventos históricos – e não apenas um.
O primeiro deles será a abertura da Copa do Mundo, um
evento que volta a ser sediado no Brasil depois de 64 anos.
O outro é a estreia de uma tecnologia de ponta que,
segundo cientistas, pode ajudar a mudar a vida de milhões de pessoas pelo
mundo.
Na abertura da Copa do Mundo com o jogo Brasil x Croácia,
será feita a primeira demonstração pública de um exoesqueleto controlado pela
mente, que permite que pessoas paraplégicas caminhem.
Se tudo der certo, a roupa robótica será vista por 70 mil
pessoas no estádio e por bilhões em todo o mundo, na televisão.
O exoesqueleto foi desenvolvido por um grupo de
cientistas que fazem parte do projeto Walk Again ("Caminhar de
Novo"), e é o resultado de anos de pesquisa de Miguel Nicolelis, um
neurocientista brasileiro que trabalha na universidade de Duke, nos Estados
Unidos.
Nicolelis acredita que a demonstração na Copa é uma forma
de promover também a imagem dos cientistas brasileiros.
"Também é a nossa intenção mostrar para o mundo um
outro Brasil. Mostrar que aqui no Brasil também se pode fazer grandes projetos
científicos com impacto humanitário e mostrar que existe um outro país, um país
que cresceu muito nos últimos anos, melhorou a vida de muita gente, mas que
ainda pode fazer coisas muito impressionantes não só para os brasileiros, mas
para todo o mundo."
Exoesqueleto
Em 2003, Nicolelis mostrou que macacos conseguiam
controlar os movimentos de braços virtuais em um avatar através da atividade de
seus cérebros.
Desde novembro, Nicolelis vem fazendo testes e
treinamentos com oito pacientes em um laboratório em São Paulo. A imprensa
especula que talvez um deles possa levantar de sua cadeira de rodas e dar o
pontapé inicial no jogo entre Brasil e Croácia, na estreia da Copa.
"Esse era o plano original", revelou Nicolelis
à BBC. "Mas nem eu posso falar sobre detalhes específicos de como será
esta demonstração. Tudo está sendo discutido neste momento."
A bateria da tecnologia permite que ele seja usada por
duas horas
Nicolelis explica que todos os pacientes têm mais de 20
anos de idade. O mais velho tem cerca de 35.
"Começamos treinando em um ambiente virtual com
simulador. Nos primeiros dias, quatro pacientes usaram o exoesqueleto para dar
seus primeiros passos e um deles usou o controle mental para chutar uma bola."
"Agora aumentamos nossas metas. O exoesqueleto está
sendo controlado por atividade cerebral e está enviando sinais de retorno para
o paciente."
Um capacete vestido pelo paciente capta os sinais do
cérebro e os repassa para um computador na mochila do exoesqueleto que
decodifica os sinais e os envia para as pernas. O terno robótico usa pistões
hidráulicos e uma bateria, que dura duas horas.
"A ideia básica é que estamos gravando os sinais do
cérebro e que depois estes sinais estão sendo traduzidos em comandos para que o
robô comece a se mexer", explica Gordon Cheng, da Universidade Técnica de
Munique, que trabalhou com Nicolelis e pesquisadores na França para construir o
exoesqueleto.
"Estou mais na parte de engenharia e técnica, e uma
das tecnologias fundamentais com a qual estamos contribuindo é o sensor que é
de ponta", disse Cheng à BBC.
O sensor na pele artificial do robô consegue captar o
ambiente de forma semelhante aos humanos.
"Quando o pé do exoesqueleto toca o chão, existe
pressão e o sensor capta essa pressão. Antes que o pé toque o chão também
existe um sensor pré-contato", explica ele.
Sensores no pé do exoesqueleto captam informações do chão
antes do contato
"O sensor também registra a temperatura e
informações sobre vibrações."
Nicolelis explicou que quando o exoesqueleto começa a se
mexer e toca o chão, o sinal é transmitido para um vibrador eletrônico no braço
do paciente.
"Quando você pratica por bastante tempo, o cérebro
começa a associar esse movimento das pernas à vibração no braço. O paciente
começa então a desenvolver uma sensação de que possui pernas e é assim que ele
começa a caminhar."
Os componentes são construídos em diversos países.
"Estamos usando material feito com impressoras 3-D,
a partir de plástico resistente, alguns deles mais fortes que metal e muito
leves. E, é claro, estamos usando alumínio."
Alguns críticos disseram que a apresentação pública na
Copa poderá passar a impressão falsa de que esta tecnologia estará disponível a
todos em breve.
Nicolelis faz questão de deixar claro que isso é "só
o começo". Cheng acredita que a tecnologia estará disponível pelo menos
dentro dos próximos 20 anos.
Sinais do cérebro controlam os movimentos do exoesqueleto
"É assim que a ciência avança. Você precisa
demonstrar e testar os conceitos. É uma forma de dizer à sociedade civil, que
paga pela ciência no mundo, de que temos a possibilidade de sonhar com esta
realidade, porque ká estamos trabalhando de forma experimental."
O ideal da ciência como forma de transformação social é
um dos princípios do centro de pesquisas montado por Nicolelis em 2005 em Natal
– o Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra
(ELS-IINN), com contribuição da milionária família de banqueiros.
O centro conta não só com laboratórios, mas também com
uma escola de ciências que atende 1,5 mil crianças e uma clínica que faz
atendimento pré-natal gratuito para 12 mil mulheres por ano.
Texto em PDF:
Disponível em < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/05/140509_exoesqueleto_entrevista_dg.shtml
> Acesso dia 27 de maio de 2014.

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