Ciência -
Mundo Científico –
Cientistas desenvolvem
‘interruptor’ de gene controlado pela força da mente
Por BBB Brasil
13 de novembro de 2014
A técnica, desenvolvida por um time liderado pelo
professor Martin Fussenegger, permite que grupos de genes sejam
"operados" por meio de ondas cerebrais, o que faz com que, dependendo
do pensamento do usuário do mecanismo, seja possível controlar a
"expressão genética", ou seja, a sintetização pelos genes de
proteínas responsáveis por importantes processos corporais.
"Pela primeira vez, nós conseguimos explorar as
ondas cerebrais, transferí-lassem o uso de fios para uma rede de genes e
regular a expressão genética dependendo do tipo de pensamento (do usuário). Ser
capaz de controlar a expressão genética com o poder do pensamento é um sonho
que nós estávamos buscando há mais de uma década", declarou Fussenegger,
professor de Biotecnologia e Bioengenharia, no material de divulgação do
experimento.
Mecanismo
No experimento, ondas cerebrais de voluntários foram
usadas para ativar uma pequena lâmpada de LED implantada em camundongos. Estas
lâmpadas ativavam então genes sensíveis à luz que haviam sido modificados para
responder a esses estímulos.
Para Fussenegger, esse mecanismo pode ser um primeiro
passo para o desenvolvimento de implantes que possam combater doenças
neurológicas como dores de cabeça crônicas, epilepsia, além de dores
nas costas .
Segundo os cientistas, no futuro, pacientes podem ser
treinados a gerar ondas cerebrais específicas que podem levar os implantes a
produzir doses de proteínas que ajudem a combater a dor, por exemplo, ou a
evitar ataques epiléticos.
Além disso, a técnica poder trazer importantes avanços no
tratamento de pacientes que sofram de Síndrome do Encarceramento, na qual quase
todos os movimentos do corpo ficam paralisados, embora as faculdades mentais continuem perfeitas.
Os autores do estudo, no entanto, alertam que ainda há um
longo caminho até que as possíveis aplicações terapêuticas da técnica possam
ser colocadas em prática.
'Ficção científica'
Mesmo assim, para Fussenegger, o sucesso do experimento
representa um grande avanço.
"Você pode até pensar: 'Porque eu deveria ter que
pensar em algo e então controlar meus genes? (Ao invés disso) eu poderia
apertar um botão e também acender as lâmpadas de LED'", disse o cientista
à BBC.
"O motivo é que desenvolvemos (o mecanismo) para sua
potencial aplicação em pacientes com Síndrome do Encarceramento, que não podem
se comunicar com o mundo exterior a não ser por sua atividade mental e ondas
cerebrais", disse o cientista.
"Isto pode parecer ficção científica, mas é uma
conexão óbvia entre diferentes tecnologias", disse.
No experimento, um dispositivo de eletroencefalografia
foi colocado na cabeça de voluntários para detectar suas ondas cerebrais. Os
voluntários foram então orientados a adotar três diferentes estados mentais,
como concentração e relaxamento.
Os sinais elétricos detectados pelo aparelho de
eletroencefalograma foram então usados para ativar lâmpadas de LED
infravermelho que levaram os genes a sintetizar proteínas, que puderam ser
então detectadas na corrente sanguínea dos camundongos.
Longo caminho
"Nestes três diferentes estados mentais nós vimos
atividades cerebrais específicas que foram então traduzidas por meio das
lâmpadas de LED em iluminações específicas (que incidiam sobre os genes). Em
resposta, estes (genes) produziram proteínas que passaram então a circular no
animal", disse Fussenegger.
O estudo, publicado na revista científica Nature Communications, é o primeiro
a fundir dois importantes campos de ponta na ciência: a interface entre cérebro
e computador e a utilização da luz para a expressão de genes, a optogenética.
Comentando a pesquisa, o professor Geraint Rees, do
Instituto de Neurociência do University College London, afirmou que o estudo
apontou uma maneira interessante para desencadear a ativação de genes. Para
Rees, no entanto, não está claro o quão útil esta tecnologia poderia ser,
especialmente porque "a optogenética está completamente limitada a
experimentos com animais".
Segundo Rees, há ainda um longo caminho a ser percorrido
até que seja possível decodificar com clareza as ondas cerebrais por meio da
interação entre cérebro e computador.
"Nós ainda não temos uma compreensão completa sobre
como traduzir o que nós conseguimos detectar (com dipositivos acoplados) na
cabeça de alguém em um padrão de pensamento", disse Rees à repórter da BBC
Melissa Hogenboom.
Já Janis Daly, pesquisadora da Faculdade de Medicina da
Universidade da Flórida, afirmou que o estudo é um importante exemplo do que
pode ser atingido por meio do trabalho interdisciplinar.
"A equipe integrou princípios sofisticados e
conhecimento dos campos da engenharia, genética e neurociência", disse.
Texto em PDF:
Disponível em < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141113_genes_controle_cq
> Acesso dia 13 de novembro de 2014.

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