Ciência -
Mundo Científico –
Os elementos do seu dia a dia que causam câncer
Por BBC Brasil
28 de outubro de 2015
"Não é que essas substâncias sejam altamente tóxicas
por si só, mas elas são amplamente usadas nas nossas vidas e é por isso que
precisamos estar atentos aos danos que causam", disse o porta-voz Nicolas
Godin.
A boa notícia, segundo Godin, é que muitos fatores de
vulnerabilidade podem ser evitados.
"Desenvolver a doença é, até certo ponto, também uma
questão de estilo de vida", ressalta.
"Na prática, há dois grandes grupos de agentes
cancerígenos, os que não podemos evitar e os que podemos. Basta fazer
escolhas."
A OMS categoriza em quatro classes o perigo que
substâncias ou situações representam à saúde.
São considerados "comprovadamente cancerígenos aos
humanos" os 118 agentes contidos na categoria "1". Os 363 itens
da categoria "2A" e "2B" são avaliados como
"provável" e "possivelmente" cancerígenos. Itens do grupo
"3" são "não classificáveis quanto a sua carcinogenicidade a
humanos" e a categoria "4" só possui uma substância considerada
"provavelmente não cancerígena aos humanos", o composto orgânico
caprolactam.
Veja abaixo a lista das substâncias do grupo 1 mais
comuns no nosso dia a dia, preparada pela IARC.
1) Tabaco
De acordo com estimativas da OMS, o tabaco mata até
metade dos usuários da substância - que pode ser fumada ou mascada. A cada ano,
mais de 5 milhões de pessoas morrem em decorrência do fumo.
"O cigarro é de longe o maior cancerígeno do mundo
moderno. Imagine uma pessoa que fumou quatro cigarros ao dia ao longo de 40
anos? Não há como calcular. A toxidade disso é enorme", disse à BBC Brasil
Christoph Rochlitz, chefe do departamento de oncologia do Hospital da
Universidade da Basileia, na Suíça
2) Fumo passivo
Estar ao lado de uma pessoa fumando pode ser tão mortal
quanto fumar, segundo a OMS.
Dados estimam que o fumo passivo mata mais de 600 mil pessoas
ao ano. Desse total, 28% são crianças. Em adultos, a exposição à fumaça do
tabaco gera sérias doenças cardiorrespiratórias, além, de câncer de pulmão.
O fumo passivo é apontado como causa de morte súbita em
bebês. Em mulheres grávidas, ele pode ter o efeito de causar nascimento de
bebês com baixo peso.
3) Poluição
A poluição do ar é um problema de saúde pública que
independe do estilo de vida dos indivíduos.
A qualidade do ar nas 1,6 mil cidades monitoradas pela
OMS avança rumo à deterioração. Entre os 91 países estudados, os níveis de
poluição apresentaram significante piora na última avaliação, divulgada em maio
de 2014.
A organização estima que, em 2012, cerca de 3,7 milhões
de pessoas com menos de 60 anos morreram em decorrência da exposição à poluição.
"É um fator externo que não se pode controlar e isso
depende das políticas públicas ambientais de cada país infelizmente",
avalia Rochlitz.
4) Exposição a raios
ultravioleta
Melanoma maligno é o tipo de câncer de pele mais letal
resultante da exposição excessiva aos raios ultravioleta emitidos pelo Sol.
É a principal causa de morte por câncer de pele. Evitar
queimaduras solares, principalmente a superexposição repetida durante a
infância, é recomendado.
Indivíduos de pele branca são mais suscetíveis à doença.
"Mas aí também vai da pessoa querer se proteger. A
Austrália, que era campeã em incidência da doença, hoje já apresenta em alguns
estudos índices menores de câncer de pele do que os países nórdicos da Europa.
Isso se deve à tomada de consciência da população que passou a utilizar
protetor solar e mudou seus hábitos", explica Rochlitz.
5) Fumaça de motores a diesel
A fumaça emitida por motores alimentados a diesel é
considerada um agente cancerígeno categoria "1" desde a década de 80,
por conter nitroarenos, compostos resultantes da combustão incompleta do
combustível.
"Em termos de toxidade, estamos falando de um
elemento muito danoso, mas não há como especificar o impacto específico dessa
substância, porque as pessoas estão expostas a ela em ambiente abertos",
diz Rochlitz.
Um estudo de 2012 em parceria do Instituto Nacional de
Câncer e do Instituto Nacional de Saúde e Segurança do Trabalho dos Estados
Unidos constatou aumento no risco de mortes por câncer de pulmão entre mineiros
que trabalhavam no subsolo expostos à fumaça de diesel.
6)
Contato com químicos formaldeídos
O formaldeído é um químico bastante comum, amplamente
utilizado na fabricação de resinas e presente em produtos como solvente de
cola.
Trata-se de um gás oriundo da oxidação do metanol, mas
também pode ser encontrado na forma líquida, o formol.
O principal risco vem da inalação, que pode resultar em
câncer da região do nariz e da faringe, e em leucemia.
"Mas se você não está diretamente exposto ao produto
por meio do seu ambiente de trabalho, não deveria se preocupar muito com isso.
É uma causa de câncer, mas pode ser evitada", avalia Godin.
"É um risco ocupacional para pintores. Tintas são
complexas e variam muito. Algumas são cancerígenas, mas não é possível apontar
um único agente específico", pondera o pesquisador da IACR, Robert Baan.
7) Uso de hormônios
progesterona e estrogênio em reposição hormonal, ou em pílulas
anticoncepcionais
Tema de muita polêmica entre as mulheres, tratamentos de
reposição hormonal e métodos anticoncepcionais são apontados como comprovados
fatores do aumento de risco de câncer quando há uso de hormônios combinados.
Estudos da OMS de 2007 concluíram que o uso associado de
progesterona e estrogênio em mulheres após a menopausa aumentavam as chances de
desenvolver câncer de mama.
Pílulas contraceptivas contendo os dois ingredientes
também são consideradas carcinogênicas da categoria "1". "Sim, é
comprovado que a combinação desses hormônios é cancerígena", assinala
Rochlitz.
A IARC faz a ressalva, porém, de que esses agentes servem
para proteger contra câncer de ovário e da mucosa uterina.
8) Álcool
"O álcool é uma substância que pode ser boa ou má,
dependendo da quantidade e qualidade que você ingere", avalia Rochlitz.
Consta na lista IARC que álcool etanol e álcool metil
presentes em bebidas alcoólicas são substâncias comprovadamente cancerígenas do
tipo "1".
Rochlitz ressalta, porém, que o consumo moderado de vinho
pode ajudar o sistema cardiovascular, segundo pesquisas recentes. Existem 2
bilhões de consumidores de álcool no mundo e, desse total, 76,3 milhões sofrem
de alcoolismo, segundo números da OMS.
9) Carne processada
Adicionado recentemente à lista das substâncias
cancerígenas, a carne vermelha processada é amplamente consumida no mundo
industrializado.
Bacon, linguiça e presunto fazem parte do café da manhã
da maioria das famílias e abandonar esses ingredientes é a nova recomendação da
OMS.
"Um aumento no consumo de 50 gramas ao dia de carne
processada representa 18% a mais de chances de desenvolver câncer da região do
colo e reto. Eu mesmo vou passar a moderar a dieta", exemplifica Rochlitz.
10)
Exposição ao gás radônio
Pouco conhecido fora da tabela periódica, o radônio é um
gás radioativo - resíduo da desintegração de urânio e tório presente em rochas
- que sobe do solo à superfície. O gás em geral se dilui no ambiente, mas pode
ter concentrações perigosas em ambientes fechados. Alguns materiais de
construção também são fonte de radônio.
Ele é incolor, inodoro e é a principal causa específica
de mortes por câncer de pulmão após o tabaco.
A epidemiologista Lene Veiga, do Conselho Nacional de
Energia Nuclear, é a representante brasileira nos encontros da OMS sobre o
assunto.
Ela explica que no Brasil ainda não há um levantamento
específico sobre a extensão do problema, mas países desenvolvidos de clima
temperado ─ onde as casas têm calefação e isolamento térmico ─ já buscam
desenvolver políticas públicas.
"O gás está presente no material de construção. É um
fator que não podemos controlar, mas precisamos entender. As pessoas estão
expostas a isso inevitavelmente", conclui Veiga.
Texto em PDF:
Disponível em < http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151028_elementos_cancerigenos_mw_lgb
> Acesso dia 28 de outubro de 2015.

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