Ciência – Mundo Cientifico –
Saiba como funciona a telepatia através
de chips e da internet
Por BBC Brasil
30 de novembro de 2012.
Imagine um mundo em que é possível comunicar-se com seus
amigos do Facebook e realizar outras tarefas online usando somente seus
pensamentos, através de um chip implantado no cérebro.
A telepatia
artificial, ou "teclepatia", nada mais é do que a comunicação mente a
mente usando a tecnologia como meio de transmissão, e tem se tornado um tema de
crescente interesse, sobretudo agora que o ser humano conta com tecnologias que
nos permitem "ler" o pensamento com maior ou menor precisão.
E embora ainda não exista sistema algum de comunicação telepática que
funcione, há cientistas que defendem a projeção de que no futuro este tipo de
conexão será tão comum como a que realizamos hoje em dia por meio de celulares.
Leitura de pensamentos
Há apenas algumas semanas, o mundo conheceu a história do canadense
Scott Routley, paciente em estado vegetativo que, com a ajuda de um aparelho de
ressonância magnética, se comunicou por meio de seus pensamentos após mais de
uma década em silêncio.
A experiência é mais um exemplo de como sensores e aparelhos de exames
nos permitem analizar o fluxo do sangue no cérebro ou detectam os impulsos
elétricos de nossos neurônios para determinar padrões vinculados a palavras,
ações ou ideias concretas.
Atualmente existem duas formas de fazer isso: colocando uma série de
sensores na parte externa da cabeça ou abrindo o crânio para implantar um chip
no córtex cerebral. Embora seja mais invasivo, o segundo é o que vem dando aos
cientistas a possibilidade de obter resultados com maior precisão.
Kevin Warwick, professor de cibernética
da Universidade de Reading, na Grã-Bretanha, foi uma das primeiras pessoas a
ter um chip implantado em seu cérebro, ainda em 2002.
Em 2004 ele
conseguiu estabelecer uma conexão telepática com sua mulher, Irina, que esatava
usando eletrodos externos.
Com os
respectivos sensores acionados, os dois sistemas nervosos foram ligados à
internet e através deste meio Irina moveu sua mão três vezes e os movimentos
foram percebidos por Kevin.
"O que
fizemos até agora é enviar sinais de sistema nervoso para sistema nervoso; o
próximo será de cérebro a cérebro. Já temos agora a tecnologia para fazer isso,
e tentar o primeiro experimento, que provavelmente será uma forma rudimentar e
telegráfica de comunicação", conta o cientista.
A comunicação
não seria muito diferente de uma ligação entre duas pessoas, por telefone, diz
o pesquisador.
Desafios
Nem todos os
especialistas da área são tão otimistas como Warwick. A telepatia artificial,
na verdade, enfrenta uma série de grandes obstáculos.
"Uma
dificuldade muito grande é conseguir a resolução necessária para identificar o
que a pessoa está pensando", diz Javier Mínguez, do Departamento de
Robótica da Universidade de Zaragoza, na Espanha, e chefe de tecnologia da
empresa BritBrain, dedicada ao desenvolvimento de interfaces
humanos-computadores.
Os seres humanos
utilizam apenas 1.500 palavras para manter uma comunicação razoavelmente
avançada e por isso os sistemas do tipo "talvez não abordariam todo o
vocabulário humano, mas sim um subconjunto dele, para saber o que a pessoa
quer", explica Mínguez.
O segundo passo,
na visão do cientista, seria como transmitir essa informação entre humanos e
introduzi-las no cérebro. Até o momento esta etapa se encontra em um estado
muito primitivo, com a transmissão mais de sensações do que de ideias.
Em 2011, a
revista especializada Nature divulgou os resultados de uma equipe
liderada pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis, baseado na Universidade de
Duke, nos Estados Unidos, que conseguiu realizar a primeira interação
bidirecional entre o cérebro de um primata e um corpo virtual.
Os cientistas
inseriram eletrodos no córtex cerebral e no sistema nervoso-sensorial de
macacos, com os quais os primatas puderam perceber sensações táticas e
dinstingyuir texturas em objetos virtuais.
Dilemas
e riscos
Superados todos
estes desafios, restaria ainda enfrentar todos os dilemas éticos envolvidos em
pesquisas com comunicação telepática.
Em primeiro
lugar, são poucas as pessoas dispostas a terem um chip instalado em seu
cérebro. O dispositivo pode gerar problemas de rejeição.
Além disso, se
os dados forem transmitidos através de um meio como a internet, os pensamentos
das pessoas poderiam ser facilmente interceptados.
E no pior dos
casos, alguém poderia introduzir pensamentos em nosso cérebro.
Mas na visão dos
especialistas ainda temos muito pela frente antes dessas situações se tornarem
realidade. Enquanto isso, pessoas como Scott Routley, que se comunicou mesmo
estando em estado vegetativo, podem usufruir das descobertas feitas ao longo do
caminho.
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