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Em caminhada de 7 anos, americano refaz
jornada da evolução humana
Por BBC Brasil
13 de janeiro de 2013
O jornalista americano
Paul Salopek passará os próximos sete anos caminhando da Etiópia, no nordeste
africano, até a ponta da América do Sul, na tentativa de refazer a jornada dos
primeiros seres humanos em suas explorações além-África.
Salopek - que tuitará e produzirá reportagens e vídeos - deve
fazer 34 mil km e 30 milhões de passadas em sua jornada, a qual ele chama de
"a longa caminhada de formação (da raça humana)".
Mas
Salopek insiste em que seu maior objetivo não é viver uma aventura, e sim
refletir sobre evolução humana.
Seu ponto de partida é Herto Bouri, área na Etiópia povoada por
humanos durante meados da Idade da Pedra.
"Paleontologistas encontraram um fóssil de Homo sapiens lá
que pode ter até 160 mil anos de idade", explica Salopek. "Quero
refazer os caminhos da primeira diáspora humana para fora da África, 50 mil a
70 mil anos atrás, da forma mais autêntica possível, a pé."
Do vale Rift, ainda na Etiópia, ele rumará com tribos nômades ao
mar Vermelho e à Arábia, terminando o ano provavelmente em Jerusalém ou Amã.
O passo seguinte é caminhar pela região da Eurásia, em direção
ao leste asiático, China e Sibéria.
Só sua passagem pela China deverá levar 14 meses.
"Pegarei um barco no estreito de Bering para chegar ao Novo
Mundo (continente americano) e à Terra do Fogo (extremo sul da América do Sul),
onde nossos ancestrais chegaram cerca de 12 mil anos atrás - o último canto
continental do mundo a ser colonizado por nossos antepassados."
Um dos caminhos possíveis
A rota
de Salopek - cuja viagem será paga pela National Geographic e cujo Cliquesite será financiado pela Fundação Knight -
segue um entre diversos caminhos que podem ter sido usados pelos humanos para
avançar pelo mundo.
Nossos antepassados chegaram à Europa (a pé) e à Austrália (por
barco) cerca de 45 mil anos atrás. Muitas das viagens foram malsucedidas,
explica Toomas Kivisild, palestrante de genética evolucionária na Universidade
de Cambridge.
Salopek, que também é biólogo, afirma que os humanos evoluíram
seu entendimento do mundo durante suas caminhadas, após desenvolver a
habilidade de andar sobre dois pés, 3 milhões de anos atrás.
"Há uma base neurológica para isso", diz.
"Pode-se argumentar, (do ponto de vista) evolucionário, que fomos
desenhados para absorver informação a 5km por hora (a média de velocidade da
caminhada)."
Logística
Andar por sete anos pelo mundo pode ser uma atividade solitária,
mas Salopek contará em alguns momentos com a companhia de sua esposa, uma
artista, e de tradutores e auxiliares, que o ajudarão a mover-se pelos 36
países da jornada.
Nem
todos os dias serão de caminhada, diz ele. "Haverá lugares em que ficarei
por semanas, ou meses. Por outros, passarei o mais rápido possível."
Salopek tentará levar cerca de 20kg de bagagem - incluindo um
laptop ultraleve, equipamentos de comunicação e de acampamento. Mas ele diz que
tentará "usar o máximo possível das economias locais, reabastecendo meus
suprimentos em mercados regionais".
Mesmo quando acompanhado, Salopek sabe que ficará vulnerável à
ação de ladrões e outros criminosos, em especial ao passar por lugares turbulentos,
como a própria Etiópia ou o conflagrado Oriente Médio.
Mas diz que a ideia de uma caminhada tão longa o diverte.
"Muitas vezes me desloquei a pé ou através de mulas e canoas nas histórias
que cobri. Gosto muito de andar."
Contar histórias
Ao mesmo tempo, ele quer desenvolver - ou redescobrir - sua
habilidade jornalística de contar histórias.
A cada 160km, ele vai gravar o som das redondezas, um vídeo de
um minuto, uma foto panorâmica e perguntar à pessoa mais próxima: "Quem é
você? De onde veio? Para onde vai?"
"É um projeto para tentar estender nosso período de atenção
(a uma história), numa época em que a quantidade de informação nos
sobrecarrega", opina.
Salopek passou anos trabalhando como correspondente estrangeiro
(período em que ganhou dois prêmios Pulitzer) e compara o jornalismo atual ao
"fast food".
"Sinto falta de textura, cor e sabor", diz, alegando
que suas histórias terão mais profundidade "simplesmente porque me moverei
mais lentamente".
Para ele, "se houvesse mais gente prestando atenção no que
está acontecendo nos campos de refugiados na fronteira afegã-paquistanesa, se
(nós jornalistas) tivéssemos tempo de não apenas reagir a crises, talvez
houvesse menos crises para reportar".
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