Ciência – Mundo Cientifico -
A tecnologia para fugir da tecnologia
Por BBC Brasil
14 de julho de 2013
Mortais em geral ─ e celebridades em particular ─ temem cada vez mais
pela falta de privacidade provocada pelo avanço da tecnologia.
Para os mais precavidos (ou mesmo preocupados), uma série de novos
produtos vem apostando na tecnologia para fugir dela.
"A tecnologia está se transformando em algo mais pessoal",
afirma à BBC o especialista em segurança Graham Cluley.
"Vamos ver mais e mais dispositivos que podem ser transportados ou
até mesmo vestidos pelos usuários", acrescenta.
Confira as novidades pesquisadas pela BBC.
Lentes anti-lentes
O Instituto Nacional de Informática no Japão desenvolveu um protótipo de
lentes que inibe a funcionalidade das câmeras de reconhecimento facial.
O dispositivo é descrito como o antídoto aos óculos do
Google, o Google Glass.
O objeto tem 11 micro-lâmpadas de LED, dispostas em torno das sobrancelhas
e do nariz.
"As micro-lâmpadas de LED são instaladas ao redor desses locais
porque a tecnologia que permite a detecção facial contrasta partes claras
(olhos e nariz) e escuras (nariz)", explicou o professor Isao Echizen ao
site diginfo.tv.
"Ao colocarmos fontes de luz próximo às partes escuras do rosto,
conseguimos bloquear o reconhecimento facial", assinalou o especialista.
Echizen também está desenvolvendo viseiras que contêm material refletor
e que absorvem a luz para inibir câmeras que não dependem da luz infra-vermelha
para funcionarem.
Roupa que bloqueia
a radiação
Empresa inventou poncho que barra radiação eletromagnética
Emil DeToffol, um engenheiro e ex-dentista de Nova York, fundou o site
lessEMF.com em 1996, após a crescente preocupação com os riscos não comprovados
da exposição à radiação eletromagnética emitida pelos aparelhos eletrônicos que
usamos em nossas vidas.
O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) diz
que não identificou riscos associados com dispositivos (de telecomunicações),
mas acrescenta que "poderia ser muito prematuro para detectar riscos a
longo prazo ou problemas que poderiam estar associados a eles".
A empresa de DeToffol especializou-se em vender uma variedade de
produtos: desde gorros de beisebol até lençóis, que contêm prata, cobre, aço
inoxidável ou fibras de carbono, materiais que refletem a radiação.
"Nos anos 90, as principais preocupações estavam relacionadas com
linhas elétricas, mantas elétricas, telas de visualização de tubos de raios
catódicos. Não existia wi-fi. Os celulares estavam apenas começando (a serem
vendidos)", disse DeToffol à BBC.
"Agora que nosso mundo se torna mais globalizado, muita gente está
ficando doente (por causa da tecnologia)".
Embora não tenha nenhum problema de saúde, DeToffol disse que clientes
de todo o mundo se queixam de uma variedade de sintomas que vão desde dores de
cabeça e irritabilidade até zumbidos nos ouvidos e problemas cardíacos.
Para ele, a radiação poderia ser a causa desses males.
"Não se trata da maioria da população, mas um certo percentual
ficou doente por isso", acrescentou.
Os produtos que tiveram mais sucesso são os gorros de beisebol e as
balaclavas (gorro que encobre a cabeça e o pescoço para proteger contra o
frio), além de uma capa que cobre tanto a cabeça quanto o torso, explicou
DeToffol.
"A pergunta-chave é qual parte do corpo precisa ser
protegida", disse o empresário.
"O mais comum é cobrir a cabeça, particularmente quando se está
dormindo".
Gaiola de Faraday
Dispositivos baseados em Gaiola de Faraday protegem contra ondas
eletromagnéticas
O nome faz alusão ao seu criador, o cientista britânico do século 19
Michael Faraday.
A gaiola de Faraday é uma construção de metal que funciona como escudo
contra as ondas eletromagnéticas.
A invenção impede que dispositivos como celulares ou qualquer objeto que
possua chips de identificação por radiofrequência, incluindo passaportes e
cartões de crédito, possam receber e transmitir informação.
A revista Wired publicou um guia na Internet sobre como construir com
fita adesiva e papel alumínio uma gaiola de Faraday do tamanho de uma mão, para
aqueles preocupados com a possibilidade de que a informação em cartões e
aparelhos pudesse ser subtraída através de scanners.
Um desertor tentou criar a sua própria versão da gaiola de Faraday
quando morava na Coreia do Norte, onde o uso dos celulares é estritamente
controlado pelas autoridades.
"Para evitar que as frequências dos celulares fossem rastreadas,
enchia um recipiente com água e colocava a tampa de uma panela para cozinhar
arroz sobre a minha cabeça quando fazia um telefonema", disse ele.
"Não sei se funcionou, mas nunca me detiveram", acrescentou.
Uma pintura contra
os dispositivos sem fio
Em 2009, pesquisadores da Universidade de Tóquio, no Japão,
desenvolveram um tipo de pintura que pode bloquear sinais de dispositivos sem
fio.
A pintura contém óxido de alumínio que ressoa a mesma frequência que o
wi-fi. Isso permite que a transmissão da informação de dentro para fora (ou
vice-versa) de um objeto com a pintura seja bloqueado.
A ideia de uma pintura que bloqueasse a radiofrequência não era nova,
mas foi a primeira do tipo em absorver frequências de 100 gigahertz, afirmaram
os pesquisadores.
Desafios
"A existência da antitecnologia revela a preocupação da nossa
sociedade e indica que deveríamos tratar esse assunto com seriedade",
afirma a especialista em tecnologia Suw Charman-Anderson.
"Precisamos ter uma discussão pública sobre o que achamos aceitável
ou não".
"Qualquer pessoa que pense que não está sendo rastreada é um pouco
ingênua. Ao comprar algo com um cartão de crédito ou usar cartões de fidelidade
oferecidos por lojas, você está sendo rastreado", acrescentou.
"Mas o nível de medidas necessárias para esconder-se totalmente
traria consequências negativas para o bem-estar emocional. Acredito que devemos
escolher bem quais batalhas queremos travar".
Texto em PDF:
Disponível em <
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/07/130709_tecnologia_dispositivos_antitecnologicos_lgb.shtml
> Acesso dia 16 de julho de 2013.

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