Ciência - Mundo Científico –
Máfia das próteses coloca vidas em risco com cirurgias
desnecessárias
Médicos
chegam a faturar R$ 100 mil por mês em esquema que desvia dinheiro do SUS e
encarece planos de saúde.
Por Fantástico
04 de janeiro de 2015
Já imaginou médicos que mandam fazer cirurgias de
próteses sem necessidade, só para ganhar comissão sobre o preço desses
implantes? Ou então gastar muito mais material do que o necessário, também para
faturar um dinheiro por fora? Esses golpes milionários, dados pela máfia das
próteses, são o tema da reportagem de Giovanni Grizotti, que você vai ver
agora.
O Fantástico revela um retrato escandaloso do que
acontece dentro de alguns consultórios e hospitais do Brasil. O Fantástico
investigou, durante três meses, um esquema que transforma a saúde do país em um
balcão de negócios.
O repórter Giovani Grizotti viajou por cinco estados e
se passou por médico para flagrar as negociatas. Empresas que vendem próteses
oferecem dinheiro para que médicos usem os seus produtos.
Mercado de próteses movimenta anualmente R$ 12 bilhões no Brasil
Mercado de próteses movimenta anualmente R$ 12 bilhões no Brasil
“Normalmente o que eles utilizavam era aquela que vendia
o material mais caro e que pagava a comissão maior”, conta uma testemunha.
Até cirurgias desnecessárias eram feitas, só para ganhar
mais.
“Sacolas de dinheiro não surgem do nada e não são dadas
à toa”, diz A testemunha.
O esquema usa documentos falsos para enganar a Justiça.
Uma indústria de liminares que explora o sofrimento de pacientes, desvia o
dinheiro do SUS e encarece os planos de saúde.
“Esse mercado de prótese no Brasil, ele hoje tem uma
organização mafiosa. É uma cadeia, onde você tem o distribuidor, você tem o
fabricante que se omite e você tem na outra ponta o médico ou o agente que vai
implantar a prótese”, conta Pedro Ramos, diretor da associação dos planos de
saúde.
O mercado de próteses movimenta anualmente R$ 12 bilhões
no Brasil. Elas têm várias finalidades, desde simples parafusos para corrigir
fraturas até peças complexas que substituem partes inteiras do corpo. As
operações são caras.
“Ortopedia, neuro e cardiologia são os mais lucrativos”,
revela uma testemunha.
Esta testemunha que falou ao Fantástico conhece bem os
bastidores das negociatas. Durante dez anos, ela trabalhou para quatro
distribuidores no Rio Grande do Sul. Ela explica como são calculadas as
comissões dos médicos.
“É feito um levantamento mensal em nome do médico.
Quantas cirurgias foram feitas o uso do material tal , ‘x’. E ali a gente faz o
levantamento. Em cima disso a gente tira o percentual dele”, conta a
testemunha.
Fantástico: Quanto
um médico chega a faturar?
Testemunha: De R$ 5 mil a R$ 50 mil, R$ 60 mil, R$ 100 mil.
Testemunha: De R$ 5 mil a R$ 50 mil, R$ 60 mil, R$ 100 mil.
Investigação
começou no RJ durante um Congresso Internacional
A investigação do Fantástico começa no Rio de Janeiro,
durante um Congresso Internacional de Ortopedia, onde os fabricantes expõem
seus lançamentos. E alguns conquistam a confiança dos médicos não só pela
qualidade, mas por outras vantagens.
“A gente consegue chegar a 20%”, diz um vendedor da
Oscar Iskin.
“20?”, pergunta o repórter do Fantástico.
“É. É o que o senhor vai achar aí no mercado”, responde o vendedor.
“20?”, pergunta o repórter do Fantástico.
“É. É o que o senhor vai achar aí no mercado”, responde o vendedor.
Vinte por cento é a comissão que o médico recebe para
indicar ao paciente a prótese vendida pela Oscar Iskin. E o pagamento é em
dinheiro vivo.
Fantástico: Em
dinheiro, espécie?
Vendedor da Oscar Iskin: É. Espécie.
Vendedor da Oscar Iskin: É. Espécie.
As negociatas se repetem em outras empresas. O sócio da
empresa Totalmedic, de São Paulo, oferece um pouco mais.
Fantástico: Mas
é o quê? 20?
Sócio da Totalmedic: 30.
Fantástico: 30? Ó.
Sócio da Totalmedic: Eu prefiro deitar e dormir tranquilo.
Sócio da Totalmedic: 30.
Fantástico: 30? Ó.
Sócio da Totalmedic: Eu prefiro deitar e dormir tranquilo.
Acompanhado do diretor, o vendedor da distribuidora Life
X também faz a sua oferta.
Fantástico: Como
é que vocês trabalham a questão comercial, assim, a relação com os médicos?
Vendedor da Life X: Olha, hoje a gente está com parceria em questão de 25%.
Fantástico: 25%.
Vendedor da Life X: A maioria das vezes é dinheiro, é espécie.
Vendedor da Life X: Olha, hoje a gente está com parceria em questão de 25%.
Fantástico: 25%.
Vendedor da Life X: A maioria das vezes é dinheiro, é espécie.
Veja um exemplo de quanto dinheiro um médico pode ganhar
em comissões, dado pela mulher que era responsável pela contabilidade de uma
grande clínica em São Paulo. “Aquilo ali parecia uma quadrilha. Uma quadrilha
agindo e lesando a população. É uma quadrilha. Um exemplo que eu tenho aqui: R$
260 mil de cirurgia, R$ 80 mil para a conta do médico. Aqui a gente tem uma
empresa pagando R$ 590 mil de comissão para o médico no período aqui de seis
meses”, conta ela.
Para dar aparência de legalidade às comissões, muitas
empresas pediam que os médicos assinassem contratos de consultoria.
“Onde o médico não presta consultoria alguma. Ele usa
material, só isso”, diz a testemunha.
Esse é o método usado pela Orcimed, de São Paulo, para
incluir, na declaração de renda da empresa, comissões de até 30% aos médicos.
Fantástico: Mas
qual é o argumento para justificar a consultoria?
Gerente da Orcimed: Faz consultoria de produtos.
Gerente da Orcimed: Faz consultoria de produtos.
A conversa foi gravada em um congresso voltado para
dentistas e médicos especializados em cirurgias ortopédicas na face, em
Campinas, interior de São Paulo. O gerente da empresa explica que a manobra
evita problemas com a Receita Federal.
Gerente da
Orcimed: O governo não está nem aí para isso. Quer saber o
seguinte: está pagando? Pagou o meu? ‘Pagou’. Está tudo bem.
Fantástico: Questão ética?
Gerente da Orcimed: Ética não interessa a ele. Não quer saber. Ele não discute ética. Discute grana. Pagou o meu? Pagou. Dane-se agora.
Fantástico: Questão ética?
Gerente da Orcimed: Ética não interessa a ele. Não quer saber. Ele não discute ética. Discute grana. Pagou o meu? Pagou. Dane-se agora.
Fraudes em
licitações
Só no Sistema Único de Saúde, o SUS, são realizadas, por
ano, 7 milhões de cirurgias que usam próteses. E algumas empresas oferecem
meios de fraudar licitações de hospitais públicos.
É o caso da IOL, de São Paulo. O repórter se apresentou
como diretor de um hospital público que queria comprar material. O gerente diz
que dá para manipular a concorrência, para que a empresa vença. Para isso,
basta exigir no edital alguma característica do implante que seja exclusiva da
IOL. Nesse caso, é o diâmetro dos furos onde vão os parafusos que fixam as
próteses.
Gerente da IOL: Geralmente
o pessoal tem 10, 12, 14.
Fantástico: Aí, no caso, num edital?
Gerente da IOL: A gente coloca 13.
Fantástico: Como?
Gerente da IOL: Bota 13, 15... 11, 13,15.
Fantástico: No caso, tem algum acerto depois daí, alguma...
Gerente da IOL: Tem. É o edital, o volume do edital, como vai ser o preço do edital. A única coisa na vida que não dá para negociar é a morte.
Fantástico: Aí, no caso, num edital?
Gerente da IOL: A gente coloca 13.
Fantástico: Como?
Gerente da IOL: Bota 13, 15... 11, 13,15.
Fantástico: No caso, tem algum acerto depois daí, alguma...
Gerente da IOL: Tem. É o edital, o volume do edital, como vai ser o preço do edital. A única coisa na vida que não dá para negociar é a morte.
A Brumed, de São José do Rio Preto, interior de São
Paulo, chegou a montar empresas de fachada em nome de funcionários para emitir
orçamentos falsos.
Bruno Garisto,
dono da Brumed: Uma está no nome do Rodrigo. Outra está no
nome do Hugo.
Fantástico: Quem é o Rodrigo?
Bruno Garisto: Rodrigo é um de Manaus, funcionário meu que mexe com coluna.
Fantástico: E o Hugo?
Bruno Garisto: E o Hugo é o que mexe com ortopedia.
Fantástico: Quem é o Rodrigo?
Bruno Garisto: Rodrigo é um de Manaus, funcionário meu que mexe com coluna.
Fantástico: E o Hugo?
Bruno Garisto: E o Hugo é o que mexe com ortopedia.
Em troca dos contratos, o dono da Brumed paga comissões
de 25%.
Bruno Garisto: Vai
ter bastante volume?
Fantástico: Vai ter. Te garanto.
Bruno Garisto: Se tiver bastante volume, dá pra chegar nuns 25.
Fantástico: 25?
Bruno Garisto: É.
Fantástico: Vamos chegar ali então. Nós somos do Fantástico e o senhor admitiu a prática de vários crimes.
Bruno Garisto: Olha, né... Brasil, né... todo mundo pega essa situação de querer alguma coisa no que produz. Então, isso o Brasil inteiro está assim.
Fantástico: O senhor admitiu fraude em licitação, falsidade ideológica, pagamento de comissões a médicos?
Bruno Garisto: Não.
Fantástico: Por que o senhor está negando algo que o senhor acabou de admitir?
Bruno Garisto: Olha, a gente não paga comissão. Entendeu?
Fantástico: O senhor nunca disse que repassa 25% de comissão?
Bruno Garisto: Não, nunca repasso.
Fantástico: Vai ter. Te garanto.
Bruno Garisto: Se tiver bastante volume, dá pra chegar nuns 25.
Fantástico: 25?
Bruno Garisto: É.
Fantástico: Vamos chegar ali então. Nós somos do Fantástico e o senhor admitiu a prática de vários crimes.
Bruno Garisto: Olha, né... Brasil, né... todo mundo pega essa situação de querer alguma coisa no que produz. Então, isso o Brasil inteiro está assim.
Fantástico: O senhor admitiu fraude em licitação, falsidade ideológica, pagamento de comissões a médicos?
Bruno Garisto: Não.
Fantástico: Por que o senhor está negando algo que o senhor acabou de admitir?
Bruno Garisto: Olha, a gente não paga comissão. Entendeu?
Fantástico: O senhor nunca disse que repassa 25% de comissão?
Bruno Garisto: Não, nunca repasso.
Fraude de R$ 7
milhões no plano de saúde dos Correios no RJ
Um esquema do mesmo tipo, com comissões e orçamentos
falsos, também alimentou uma fraude de pelo menos R$ 7 milhões no plano de
saúde dos Correios no Rio de Janeiro.
Flagrado pela Polícia Federal, João Maurício Gomes da
Silva, ex-assessor da Diretoria Regional dos Correios fez um acordo de delação
premiada e contou detalhes do golpe.
“Aquela empresa que, teoricamente, dizemos que era
parceira, ela apresentava, já vinham com duas ou três orçamentos montados.
Então sempre determinando quem estaria levando naquela determinada cirurgia,
quem seria a beneficiada”, diz João Maurício Gomes da Silva, ex-assessor da
diretoria regional dos Correios.
Ele mostra o exemplo de uma cirurgia de coluna que
custou quase R$ 1 milhão ao plano dos Correios.
“Bem paga, muito bem paga, num preço normal, de repente,
a uns R$ 180 mil, no máximo uns R$ 200 mil.”, conta o ex-assessor da diretoria
regional dos Correios.
Para justificar operações tão caras, os médicos cobravam
por produtos que sequer eram usados.
“Ele multiplicava mil, duas mil vezes a necessidade
dessa massa com a ideia de que conseguiria justificar isso tecnicamente que o
organismo absorvia essa massa”, explica João Maurício Gomes da Silva.
A massa é como um cimento para firmar os parafusos que
fixam as próteses.
Representantes
de empresa em SC dão detalhes sem constrangimento
A artimanha de cobrar por material não utilizado é comum
nesse mercado negro. Os representantes da empresa Strehl, de Balneário
Camboriú, em Santa Catarina, dão detalhes sem constrangimento.
Representante
da Strehl: No raio-X ou qualquer outra coisa, não
aparece. Aí você pode inventar, entendeu? Usei seis.
Fantástico: Não aparece... Ele não vai ter como provar que eu usei três.
Fantástico: Não aparece... Ele não vai ter como provar que eu usei três.
Veja o que pode render a comissão paga por uma única
cirurgia de face:
Representante
da Strehl: Tu vai ganhar em torno de uns R$ 18 mil,
R$ 20 mil.
Fantástico: Para um custo total de…?
Representante da Strehl: Aí depende de quanto o senhor pedir, quanto mais pedir, mais ganha. O pessoal pede. Tudo que dá para pedir, o pessoal pede.
Fantástico: Até exagera um pouquinho, né?
Representante da Strehl: Sempre, né? Sempre exagerado.
E o abuso vai além. Outra tática é até motivo de piada para os vendedores.
Fantástico: Para um custo total de…?
Representante da Strehl: Aí depende de quanto o senhor pedir, quanto mais pedir, mais ganha. O pessoal pede. Tudo que dá para pedir, o pessoal pede.
Fantástico: Até exagera um pouquinho, né?
Representante da Strehl: Sempre, né? Sempre exagerado.
E o abuso vai além. Outra tática é até motivo de piada para os vendedores.
Representante
da Strehl: A gente até riu quando eu soube disso aí.
Que eles entortaram a placa, eles tentaram usar, mas aí eles não conseguiram.
Fantástico: E aí tiveram que colocar outra?
Representante da Strehl: Aí tiveram que colocar outra.
Fantástico: E aí tiveram que colocar outra?
Representante da Strehl: Aí tiveram que colocar outra.
Ou seja, danificaram uma prótese de propósito para poder
cobrar duas vezes. E o rendimento é dividido.
Representante
da Strehl: É.
Tira o custo do material. E o lucro a gente divide em dois.
Fantástico: Meio a meio?
Representante da Strehl: Meio a meio.
Fantástico: Meio a meio?
Representante da Strehl: Meio a meio.
É tanta desfaçatez que surgiu uma nova especialidade em
alguns hospitais: os fiscais de cirurgia. Médicos contratados por planos de
saúde para vigiar as operações mais caras.
“Alguns determinados materiais não deixam registro, então,
quando são implantados, não aparecem em filmes radiológicos e é necessário que
seja acompanhado para ver efetivamente qual foi a quantidade de material
utilizado”, conta um fiscal.
Médicos indicam
cirurgias desnecessárias para lucrar mais
Entre tanta coisa errada, um golpe se destaca como o
mais escandaloso: indicar uma cirurgia sem necessidade, só para ganhar o
dinheiro. É o que denuncia o médico Alberto Kaemmerer, que durante 14 anos foi
diretor de um grande hospital de Porto Alegre.
“A cirurgia mal indicada, ela acresce um risco
muitíssimo importante. Risco de morte”, alerta o cirurgião Alberto Kaemmerer.
O hospital precisou criar um grupo de médicos para
revisar os pedidos de cirurgia. Pelo menos 35% eram rejeitados, porque a
operação seria desnecessária.
Fantástico: O
que que está por trás desse alto percentual de cirurgias desnecessárias na sua
opinião?
Alberto Kaemmerer: Ganho financeiro.
Fantástico: De quem?
Alberto Kaemmerer: De médicos e também de alguns hospitais.
Alberto Kaemmerer: Ganho financeiro.
Fantástico: De quem?
Alberto Kaemmerer: De médicos e também de alguns hospitais.
Uma experiência parecida foi realizada pelo Hospital
Albert Einstein, em São Paulo, um dos principais da América Latina. Durante um
ano, uma equipe médica revisou os pedidos de cirurgia de coluna encaminhados
por um plano de saúde.
“Nós recebemos aproximadamente 1,1 mil pacientes no período
de um ano. E desses, menos de 500 tiveram indicação cirúrgica. Então, muito
possivelmente, estava havendo um exagero em relação a essas indicações”, diz
Cláudio Lottenberg, presidente do Hospital Albert Einstein.
Indústria de
liminares
Dona Wilma, de 76 anos, pode ter sido vítima de uma
indústria de liminares para realizar cirurgias às vezes desnecessárias. Ela mal
consegue caminhar por causa de um problema na coluna. Também sofre de
depressão.
“Eu não consigo me movimentar, pegar uma vassoura, varrer
uma casa, aí vem a dor”, conta a aposentada Wilma Prates.
O esquema funciona assim: depois de esperar anos na fila
do SUS, pacientes vão até os hospitais para realizar a consulta. Ali, em vez de
dar o atendimento pelo sistema público, os médicos encaminham os pacientes a
escritórios de advocacia. Com documentos falsos e orçamentos de cirurgia
superfaturados, são montados pedidos de liminar para obrigar o governo a bancar
os procedimentos. Foi o que aconteceu com Dona Wilma.
“O advogado me disse: ‘Pode deixar comigo que eu resolvo
a situação’”, diz José Prates, marido de Wilma.
Mas um laudo indicou que a dona Wilma correria risco de
vida se fizesse a cirurgia. Com base nisso, a liminar foi negada pela Justiça.
O Fantástico examinou em detalhes o processo judicial. O
advogado apresentou à Justiça três orçamentos de médicos para que os
desembargadores escolhessem o de menor valor, que é o do ortopedista Fernando
Sanchis. Pedimos a um perito para examinar os papéis.
“Conclusão que ele é o grande suspeito de ter produzido
as falsificações das assinaturas, de ter colocado o carimbo e de ter produzido
o texto. Eu chego à conclusão que isto aqui é uma fraude”, define o perito Oto
Henrique Rodrigues.
O valor do material que seria utilizado na cirurgia era
de R$ 151 mil. O fornecedor é a empresa Intelimed, de Porto Alegre. A empresa
paga comissões de até 20% aos médicos que indicam seus produtos. Quem admite é
um vendedor.
Vendedor da Intelimed: Depende das linhas, 15%, 20%.
Nessa linha, nesse valor aí. Isso nos principais convênios. Mas teria que ver
direitinho.
Seu João Francisco, de Pelotas, no interior do Rio
Grande do Sul, também foi usado no esquema. Ele é usuário do plano de saúde dos
servidores do Governo Federal.
O advogado indicado pelo doutor Sanchis entrou com um
pedido de liminar para que o plano bancasse uma cirurgia de coluna, orçada em
R$ 110 mil.
O plano de saúde do Seu João conseguiu suspender a
liminar e fez a mesma operação, com outro médico, por pouco mais de R$ 9 mil.
"Essas enrolações, quem é prejudicado é quem tá
doente, entendeste? Tu está à mercê dele, você não entende nada", lamenta
o serralheiro João Francisco Costa Da Silva.
Segundo os advogados do governo, os valores que aparecem
nas liminares chegam a ser 20 vezes maiores do que os de mercado.
Fantástico: E
quem paga essa conta?
Fabrícia Boscaini, procuradora: Quem paga essa conta somos todos nós. Vai ser bloqueado o dinheiro do Estado e esse dinheiro vai sair para pagar um procedimento particular, que teria dentro do sistema.
Fabrícia Boscaini, procuradora: Quem paga essa conta somos todos nós. Vai ser bloqueado o dinheiro do Estado e esse dinheiro vai sair para pagar um procedimento particular, que teria dentro do sistema.
É o caso de Dona Elisabete, que esperou um ano pela
liminar e agora teve que voltar para a fila do SUS.
“Aí é muita cachorrada. Poxa vida, aí eles pegam as
pessoas bem inocentes para fazer uma coisa dessas.”, lamenta a balconista
Elisabete Steinmacher Cufre.
Pelo menos 65 pedidos de liminar sob suspeita foram
descobertos pelos procuradores do Rio Grande do Sul. Um desembargador que atua
em alguns desses processos desabafa.
“Que o sistema penal do país está falido, porque no
momento em que se encontram situações em que pessoas, seja que área for,
profissionais, buscam o Poder Judiciário para realizar uma fraude e conseguir
com isso auferir grandes lucros, significa que o sistema está desmoralizado e
que estão, inclusive, brincando com o Judiciário. É lamentável”, diz o
desembargador do TJ-RS, João Barcelos de Souza Júnior.
Procurado pelo Fantástico, o cirurgião Fernando Sanchis
nega que receba comissão de fornecedores de próteses. Mas reconhece que pode
ter assinado laudos em nome de outros médicos.
Fantástico: O
senhor está admitindo com isso, uma falsificação.
Fernando Sanchis: Não.
Fantástico: Isso não é grave?
Fernando Sanchis: Não, de maneira nenhuma.
Fantástico: O senhor reconheceu que pode ter assinado em nome de outros médicos.
Fernando Sanchis: Mas com conhecimento dele, sempre. Ele trabalha junto com nós.
Fernando Sanchis: Não.
Fantástico: Isso não é grave?
Fernando Sanchis: Não, de maneira nenhuma.
Fantástico: O senhor reconheceu que pode ter assinado em nome de outros médicos.
Fernando Sanchis: Mas com conhecimento dele, sempre. Ele trabalha junto com nós.
Por telefone, Henrique Cruz, médico que aparece nos
orçamentos e trabalhava com Fernando Sanchis, nega ter autorizado a assinatura
e diz que deixou a equipe dele após descobrir a fraude.
“Quando eu vi isso aí, eu caí fora. Eu descobri (que ele
estava fazendo isso) porque me mandaram um papel falando assim, o paciente
chegou com um papel com esses orçamentos. Aí eu falei, ‘eu não assinei
orçamento’”, alega Henrique Cruz.
“Então, o que o consumidor deve fazer? Primeiro: se ele
tem dúvida da recomendação desse procedimento, que ele procure um segundo ou um
terceiro profissional da área da saúde. O consumidor tem um papel fundamental
em não acomodar-se quando a recomendação que está vindo do profissional da
saúde é suspeita de alguma coisa que não esteja correta ou que coloque sua vida
em jogo”, orienta Alcebíades Santini, presidente do Fórum Latino-americano de
Defesa do Consumidor.
Presentes e pagamento de comissões a médicos
Presentes e pagamento de comissões a médicos
A oferta de presentes e o pagamento de comissões a
médicos é uma prática comum, e não vem de hoje. Foi o que concluiu uma pesquisa
do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, entre 2009 e 2010. Trinta e sete
por cento dos entrevistados admitiram que receberam presentes com valor
superior a R$ 500 nos 12 meses anteriores à pesquisa. E o assédio começa cedo,
logo na faculdade: 74% dos entrevistados disseram que receberam ou viram um
colega receber benefícios da indústria durante os seis anos do curso de medicina.
“O Código de Ética Médica veda essa interação, com o
intuito de vantagens, com a indústria e/ou a farmácia. Óbvio que as punições
são previstas em lei. Estabelece desde uma censura e a até mesmo a cassação do
exercício da profissão”, explica Carlos Vital, presidente do Conselho Federal
de Medicina.
Mas não é a ética que preocupa os vendedores de próteses
que pagam comissões a médicos.
“A gente sabe que esses órgãos não vão discutir nada
disso, porque isso é uma discussão sem fim”, diz um vendedor.
O que eles temem é que essas negociatas deixem o sigilo
dos consultórios e hospitais e se tornem públicas, em uma reportagem de
televisão, por exemplo.
Vendedor: Ano
que vem vai ser um ano, para esse mercado, importante.
Fantástico: Por quê?
Vendedor: Porque vai estourar tudo. Porque a gente já sabe que a questão da Receita Federal e a Polícia Federal em cima. Ontem a gente teve informação que provavelmente em meados de janeiro o Fantástico faça uma reportagem com duas especialidades mostrando como funciona esse mercado.
Fantástico: Vamos ali, que o meu colega está aguardando ali.
Fantástico: Por quê?
Vendedor: Porque vai estourar tudo. Porque a gente já sabe que a questão da Receita Federal e a Polícia Federal em cima. Ontem a gente teve informação que provavelmente em meados de janeiro o Fantástico faça uma reportagem com duas especialidades mostrando como funciona esse mercado.
Fantástico: Vamos ali, que o meu colega está aguardando ali.
O repórter Giovani Grizotti se apresenta.
Fantástico: Você
disse que o Fantástico vai dar matéria sobre isso? Nós somos do Fantástico. O
que você tem a dizer? Você paga propina para médico?
Vendedor: Não eu, não. Jamais.
Vendedor: Não eu, não. Jamais.
E quando o vendedor é informado que vai aparecer na
reportagem, decide correr, desesperadamente.
Fantástico: Você
maquia pagamento de propina na forma de contrato de consultoria? Por que você
está correndo? A gente só quer uma explicação sua, por gentileza.
Fantástico procurou todas as empresas mostradas na reportagem
Fantástico procurou todas as empresas mostradas na reportagem
A Life X não quis se manifestar.
Em nota, a Totalmedic disse que respeita as tabelas dos
planos de saúde e que vai adotar as medidas cabíveis.
Já a IOL implantes disse que não participa de licitações
públicas e repudia insinuações de fraude. Segundo a empresa, a conversa entre o
gerente e o repórter aconteceu em ambiente informal e não representa a opinião
do fabricante.
Também em nota, a Orcimed afirmou que cobrar comissões
se tornou normal no mercado. A Orcimed disse ainda que sofre boicote de médicos
por não aceitar a prática do superfaturamento e que, por isso, deixou de
fornecer material para diversas cirurgias.
Os diretores da empresa Strehl não foram encontrados.
A Oscar Skin informou que demitiu o vendedor que
apareceu oferecendo comissão.
Também por nota, a Intelimed disse que o representante
mostrado na reportagem é um funcionário terceirizado. Mas que vai tomar as
medidas cabíveis.
Texto em PDF:
Disponível em < http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/01/mafia-das-proteses-coloca-vidas-em-risco-com-cirurgias-desnecessarias.html
> Acesso dia 04 de janeiro de 2015.

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