Ciência - Mundo Científico –
Médicos fazem cirurgias de coração com material vencido
para lucrar
Fantástico mostra novas
denúncias envolvendo a máfia das próteses. O CFM defende uma tabela para os
preços de próteses e implantes.
Por Fantástico
11 de janeiro de 2015
O
Fantástico mostra novas denúncias envolvendo a máfia das próteses. Além das
operações desnecessárias, médicos chegam a usar material vencido, só para
ganhar comissão. E, o que é mais chocante: desta vez, as cirurgias são no
coração dos pacientes. A reportagem é de Giovani Grizotti.
“Eles
correm risco de vida. Eles podem morrer. Porque a partir do momento que você
coloca um produto que tem uma droga que está vencida, ele pode ir a óbito”, diz
uma testemunha.
“São
hospitais que colocam dois, três stents num paciente sem necessidade. Fazem as
análises, veem que tem apenas uma obstrução e colocam dois ou três apenas pra
ter uma comissão maior”, conta outra testemunha.
Essas são
testemunhas de um esquema que coloca em risco a vida de pacientes com problemas
cardíacos em troca de dinheiro.
Os stents
são tubos metálicos usados para expandir os vasos sanguíneos entupidos do
coração e normalizar a circulação. Em muitos casos, são a única saída para
evitar um infarto. E uma fonte de lucro para médicos inescrupulosos. Veja o que
diz um ex-funcionário de uma distribuidora desse tipo de implante do Rio Grande
do Sul:
“Cada
stent, o médico chegava a ganhar até R$ 3 mil, R$ 3,5 mil, R$ 4 mil. Então, tu
imagina ele colocando dez stents num mês, ele ganhava R$ 35 mil, R$ 40 mil.
Somando 12 meses, ele ganhava R$ 480 mil por ano. Tudo em dinheiro vivo, fora
de taxas, não declarado”.
O
cardiologista Fernando Sant’Anna decidiu investigar a real necessidade do uso
de stents. “Nós estudamos 250 pacientes e foram 451 obstruções, 451
entupimentos”.
Neste
universo pesquisado, ele chegou à conclusão de que 22% dos implantes de stent
são desnecessários.
Em Itajaí,
Santa Catarina, um crime pior ainda. Uma mulher trabalhou para um distribuidor
de implantes e diz que pacientes de um hospital receberam stents com prazos de
validade vencidos.
“Se está
próximo do vencimento ou está vencido, esse valor ele aumenta. Maior é o valor
da propina. No final do mês ele pode ter de R$ 20 mil a R$ 30 mil de salário
extra”, conta.
Ela
entregou ao Fantástico cópias de mensagens e planilhas que detalham as
comissões pagas a um médico do hospital. Procurada, a direção abriu uma sindicância,
ainda em andamento, e confirmou que dois pacientes receberam stents vencidos.
“Jamais
esperávamos que uma situação dessa pudesse ter acontecido. Os pacientes estão
sendo acompanhados periodicamente pelos médicos cardiologistas clínicos”, explica
Zilda Bueno, assessora jurídica do hospital.
“Essa
utilização de stents com prazo de validade vencido pode obstruir o stent,
levando à ineficácia da colocação desse stent, podendo acarretar, óbvio,
consequências de caráter irreversível e até óbito”, alerta Carlos Vital,
presidente do Conselho Federal de Medicina.
Em
Uberlândia, Minas Gerais, marcapassos eram colocados, sem necessidade, nos
corações dos pacientes. Os fornecedores dos materiais pagavam comissões para os
médicos.
Fantástico:
Quais eram os valores desses marcapassos e a que percentuais chegavam essas
comissões?
Carlos Henrique Cota D’Ângelo, delegado da Polícia Federal de Uberlândia: Era realmente uma fonte de recurso muito boa, porque produto de até R$ 80 mil chegava-se a porcentagens de até 50% desse produto, colocado em grande quantidade.
Carlos Henrique Cota D’Ângelo, delegado da Polícia Federal de Uberlândia: Era realmente uma fonte de recurso muito boa, porque produto de até R$ 80 mil chegava-se a porcentagens de até 50% desse produto, colocado em grande quantidade.
“Outros
tipos de procedimento poderiam ter sido feitos pra que se evitasse a colocação
do marcapasso”, avalia o procurador da República Frederico Pellucci.
No Brasil,
as comissões contribuem para encarecer os implantes.
“Na Europa,
um stent farmacológico ele é comercializado a 300 euros, mais ou menos. Já no
Brasil, o valor praticado é no mínimo R$ 8 mil, e pode chegar a até R$ 13 mil,
R$ 14 mil”, afirma o procurador da República de Urbelândia Cléber Eustáquio
Neves.
O
procurador de Uberlândia investiga abuso de poder econômico no preço das
próteses. As notas fiscais obtidas revelam uma diferença muito alta entre a
compra e a venda. Um parafuso usado em cirurgias de coluna custou ao
distribuidor de Minas Gerais o equivalente a R$ 260. Em Porto Alegre, ele foi
vendido por quase R$ 4 mil, uma diferença de 1.438%.
O Conselho
Federal de Medicina defende uma tabela para os preços de próteses e implantes.
“Isso vai coibir a exorbitância de lucro que inclusive levam à possibilidade de
maior oferta de propinas”, diz Vital.
Nos Estados
Unidos, o jornal The New York Times, um dos mais importantes do mundo, publicou
no mês passado uma reportagem sobre uma gigante no mercado de próteses. A
Biomet, desde 2012, é investigada pelo pagamento de propinas para médicos no
México e no Brasil. Aqui, a Biomet é fornecedora de próteses e outros materiais
para a Intelimed.
No domingo
passado, o Fantástico mostrou que a Intelimed paga comissões de até 20% aos
médicos que indicam seus produtos.
Fantástico:
Como é que vocês tão trabalhando comercialmente?
Vendedor: Depende das linhas, né? Depende das linhas, 15%, 20%.
Vendedor: Depende das linhas, né? Depende das linhas, 15%, 20%.
A empresa
fornece próteses para o doutor Fernando Sanchis. Como foi mostrado semana
passada, o esquema de liminares usa documentos falsos para
obrigar governo e planos de saúde a pagarem por operações superfaturadas.
Daniela de
Castro Nicheli diz ser uma das vítimas do doutor Sanchis e está processando o
médico.
“Eu tenho
muita dor. E eu perdi o movimento do pé. Eu não tenho força no pé e nem o
movimento normal”, afirma.
Ela ficou
com dificuldades para caminhar. “Eu não posso dirigir, eu não posso sair com o
meu filho para passear”.
Na
segunda-feira, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul abriu
sindicância contra Fernando Sanchis. Os hospitais em que ele atuava também vão
investigá-lo.
Durante a
semana, o Fantástico recebeu dezenas de denúncias contra a máfia das próteses.
No Rio de Janeiro, o médico Marcelo Paiva Paes de Oliveira passou por uma
operação de coluna há mais de um ano:
“Existem
três laudos médicos dizendo que a indicação cirúrgica foi uma indicação mal
feita e que na verdade atendeu a interesses financeiros. Minha cirurgia custou
só de parafuso, seis parafusos, R$ 208 mil”.
Na
sexta-feira, o Conselho Regional de Medicina do Rio abriu um processo contra o
cirurgião que operou Marcelo.
Em alguns
casos, o descalabro começa mesmo antes da cirurgia. A empresa pernambucana
Intraview, de equipamentos de diagnóstico por imagem, superfatura a venda.
“A gente
pode botar um preço maior e fica um negócio legal pra você. Pra cima, o céu é o
limite”, oferece o vendedor.
No mercado
de próteses, havia certeza de impunidade. “Ninguém vai investigar, ninguém vai
dar bola. Isso acontece há mais de 12, 13, 14 anos”, diz uma testemunha.
“Uma
profissão tão nobre quanto a medicina não comporta as pessoas atuarem dessa
maneira. Se preciso for, cassar o registro profissional deles”, diz Florentino
Cardoso, presidente da Associação Médica Brasileira.
Depois das
denúncias do Fantástico, CPIs foram propostas na Câmara dos Deputados e na
Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. O governo federal anunciou, na
segunda-feira, a criação de uma força-tarefa com o Ministério da Saúde, Receita
e Polícia Federal para fazer uma devassa no mercado negro das próteses.
O vendedor
diz que tem medo de virar nome de uma operação da PF. “Eu não quero tá com o
nome em operação nenhuma dessas aí”.
Justamente
o que o governo pretende fazer.
“Nós
estamos declarando guerra com toda a nossa força”, garante o ministro da
Justiça, José Eduardo Cardozo.
“Eles não
estão preocupados com o paciente. Eles estão preocupados quanto eles vão
receber no final. Pra eles o que importa é, no dia 30 de cada mês, quanto eles
têm pra receber”, afima uma testemunha.
Texto em PDF:
Disponível em < http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/01/medicos-fazem-cirurgias-de-coracao-com-material-vencido-para-lucrar.html
> Acesso dia 11 de janeiro de 2015.

Nenhum comentário:
Postar um comentário