Ciência -
Mundo Científico –
Alunos enfrentam falta de preparo de professores em sala de aula
Por Jornal Nacional
03 de fevereiro de 2015
Nesta semana, o Jornal Nacional está exibindo uma
série de reportagens especiais sobre a situação dos professores no Brasil.
Vamos mostrar que um dos principais problemas na qualidade do ensino vem da
falha na formação acadêmica.
Pitágoras foi mestre uns 500 anos antes de Cristo,
época em que o professor tinha tempo para observar o mundo, fazer descobertas e
ensinar.
No século XXI, Pitágoras é professor no Brasil. Dá
aula no Rio de Janeiro e a vida dele não é fácil.
Após a primeira aula, Pitágoras Cyriaco pega de
novo a moto, percorre ruas da Zona Norte do Rio, come rapidinho no balcão e
chega na segunda escola onde leciona. Pensa que parou por aí? O Pitágoras
carioca chega à terceira escola onde ensina matemática para jovens e adultos.
“Não se esqueça que amanhã é sábado e amanhã de manhã ainda eu trabalho”,
lembra o professor.
É a realidade de boa parte dos colegas dele: dos
professores das escolas públicas. Não é à toa que o mestre não tem seguidores.
Perguntamos na sala de aula: “alguém aqui quer ser professor?” Ninguém
responde.
Ensinar é só parte do trabalho. Ainda tem a
preparação de aula, correção de trabalhos e provas. “Para mim fica em torno de
umas 250 provas e trabalhos por mês.
E olha que Pitágoras ainda deu sorte. Mesmo sem
fazer curso de doutorado, como gostaria, teve boa formação. O pai foi um
apaixonado professor de matemática.
Jornal Nacional: E você gosta do seu nome?
Pitágoras Cyriaco, professor de matemática: Adoro o meu nome. Não trocaria.
Pitágoras Cyriaco, professor de matemática: Adoro o meu nome. Não trocaria.
Ensinar a matéria em que se formou, como o
Pitágoras faz, deveria ser norma, mas é quase luxo no Brasil. Aqui, 52% dos
professores não têm licenciatura, que é a formação específica na matéria que
leciona. Um quarto dos docentes não têm nível superior e muitos dos que
chegaram lá arrastam para a faculdade as deficiências do ensino médio.
“A larga maioria dos jovens não quer mais ser
professor no Brasil, só 2% e mesmo assim são aqueles que não tiveram um grande
desempenho no ensino médio e vê nas licenciaturas o caminho mais fácil de
ingressar em um curso superior”, explica o diretor do Instituto Ayrton Senna,
Mozart Neves Ramos.
O aluno com dificuldades de ontem se torna o
professor com dificuldades amanhã. Esse ciclo vicioso não está sendo rompido
nem pelos governantes, nem pelas universidades, segundo a professora Bernadete
Gatti. “O professor que estamos formando hoje já está saindo nessa condição de
uma formação muito precária”, afirma.
Coordenadora de pesquisas educacionais da Fundação
Carlos Chagas, ela analisou profundamente a formação dos professores no país.
Descobriu que nas faculdades de pedagogia, sobra teoria e falta conteúdo.
Só uma média de 7,5% das disciplinas aborda as
matérias e temas que serão ensinados nas séries iniciais do ensino fundamental.
Ou seja " o que ensinar" é deixado de lado. Já nos cursos de
licenciatura, em geral acontece o contrário: o "como ensinar” é fraco. Tem
mais conteúdo e pouca didática.
“Ter o conhecimento em si de uma disciplina não
leva o professor a saber fazer o seu trabalho didático em sala de aula. Eu
proponho que se faça uma revolução. Porque, no meu entender, nós precisamos
mudar a estrutura formativa e os currículos”, diz Bernadete.
A mistura de formação falha desde o ensino médio,
da correria e das carências cria situações como a de professores que
simplesmente não leem mais.
“O que mais tem é livro que quero e não tenho
condição de comprar nem tempo para ler”, lamenta a professora Ana Lúcia
Alencar.
Jornal Nacional: É duro
para um professor?
Ronaldo dos Santos, professor: Demais. Como você não lê um livro e pede ao seu aluno para ler um livro?
Ronaldo dos Santos, professor: Demais. Como você não lê um livro e pede ao seu aluno para ler um livro?
A consequência é trágica: “na verdade eu nunca vi
ela chegando com livro para ler dentro de casa não”, conta uma mãe de aluna.
A distância que separa a escola pública sem livros
em Novo Gama de uma escola particular em São Paulo vai muito além dos
quilômetros entre as duas cidades. No caso de São Paulo, os alunos também são
pobres, a maioria mora em região de favela, mas conseguiu bolsa e estuda em um
dos colégios mais tradicionais da cidade.
“Esses garotos chegam e conquistam um espaço pelo
mérito e porque recebem uma coisa que é fundamental: escola. Nós oferecemos a
eles uma escola”, diz o professor de português Marcelo Donatti.
E no centro dela professores bem pagos, de quem se exige o melhor.
E no centro dela professores bem pagos, de quem se exige o melhor.
Marcelo Donatti, professor de português: Um professor de fato é aquele que estuda o assunto, estuda o conteúdo
que ele procura disseminar por aí.
Jornal Nacional: O sr. estuda ainda português?
Marcelo Donatti: Muito.
Jornal Nacional: O sr. estuda ainda português?
Marcelo Donatti: Muito.
E o resultado aparece na aula, em estilo
tradicional, mas que hipnotiza os alunos.
“A distância entre o aluno e o professor some.
Parece que nós estamos todos juntos num diálogo comum. E esse que é o
diferencial de uma boa aula”, elogia a aluna Larissa Sousa.
“É o melhor professor que já tive em toda a minha
vida. Quando ele apresentou Carlos Drummond, se você presta atenção no que ele
está falando, Carlos Drummond está aqui, entendeu?”, ressalta outra aluna.
Texto em PDF:
Disponível em < http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/02/alunos-enfrentam-falta-de-preparo-de-professores-em-sala-de-aula.html
> Acesso dia 26 de março de 2015.

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