Ciência -
Mundo Científico –
Aumenta o número de
professores que abandonam as salas de aula
Por Jornal Nacional
02 de fevereiro de 2015
O Jornal
Nacional começa a apresentar nesta segunda-feira (02), uma série especial de
reportagens sobre a situação dos professores no Brasil.
É uma profissão
que todo mundo elogia, todo mundo concorda que é fundamental, mas que tem
despertado o interesse de um número cada vez menor de brasileiros. Os motivos
disso estão em discussão na reportagem da Graziela Azevedo e do Ronaldo de
Sousa.
O Brasil tem
uma necessidade urgente na escola. O país tem uma promessa: "Nosso lema
será: Brasil pátria educadora”, afirmou a presidente Dilma Rousseff no discurso
de posse.
E um grande
desafio: “O apagão já começou há muito tempo. O déficit de professores nas
áreas de química, física, matemática e biologia é da ordem de 150 mil
professores” conta o diretor do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos.
“Eu fiquei dois
anos sem professor de matemática. Na 5° e na 6° série. Então até hoje eu tenho
muita dificuldade”, conta a estudante Larissa Souza.
“Fiquei
trocando de professor de história na 8° série cinco vezes”, reclama um aluno.
Aqueles que
poderiam ser futuros professores também estão sumindo dos cursos universitários
de formação.
Acontece nas
faculdades particulares: “Na licenciatura de pedagogia, sempre no primeiro
semestre é lotada. São 60, quase 70 alunos e vai diminuindo. O pessoal do 6°semestre,
nós temos 10 alunos”, explica Carolina Gato, estudante de Matemática e
Pedagogia.
Nas
universidades públicas a desistência também é notória: “Porque as lacunas
começam a aparecer, então coisas que deveriam ter aprendido no ensino médio não
aprenderam e aí chega na hora da prova tira zero, tira 2 na prova. Vira uma
bola de neve e abandona o curso”, conta Rebeca Omelczuck, estudante de Física.
Mas e quem
ficou? Como estão os professores que levaram seus cursos até o fim e estão
encarando as salas de aula?
É o que o
Ministério Público quer descobrir. Em Novo Gama, município pobre e vizinho à
Brasília, as promotoras de justiça mobilizaram mães, pais, servidores públicos
e conselheiros da cidade para obter
respostas.
A auditoria
cívica é o nome que o Ministério Público deu para o trabalho dos cidadãos que
querem melhorar a educação na sua comunidade. Um trabalho que ao Jornal
Nacional acompanhou.
Trazendo
questionários e vontade de conhecer melhor as escolas públicas, eles se
espalham. Parte da tarefa é conversar com os professores. As carências vão
aparecendo.
“Falta tudo.
Igual folha para tirar cópia para a prova, por exemplo. A gente tem que pedir
para os meninos, tem que ir comprar. Chove e a sala fica praticamente alagada”,
conta a professora Marta Costa Alves.
Uma realidade
tão dolorida que as palavras começam a vir acompanhadas de lágrimas.
Marta Giovana
Costa Alves, professora: Quando me deparei em
uma sala de aula e vi as dificuldades ali eu não queria estar mais ali.
Jornal Nacional: Você se sente sozinha?
Marta: Nossa.
Jornal Nacional: Você se sente sozinha?
Marta: Nossa.
Assim, à flor
da pele, a professora confessa não se sentir mais um modelo para os seus
alunos.
Marta: A criança tem que olhar pra mim e ver em mim futuros, sonhos. E eu
acredito que as crianças não estão conseguindo ver no professor mais isso.
Jornal Nacional: O que elas veem?
Marta: Um professor cansado, desmotivado, triste.
Jornal Nacional: O que elas veem?
Marta: Um professor cansado, desmotivado, triste.
A
entrevistadora, que também é professora, desaba junto.
Jornal Nacional: E a senhora chora por que?
Pesquisadora: Porque são 23 anos, quase aposentando, e as palavras dela são as minhas
Jornal Nacional: E a senhora chora por que?
Pesquisadora: Porque são 23 anos, quase aposentando, e as palavras dela são as minhas
Depois da
entrevista, a professora Marta enxugou as lágrimas e voltou para a sala de
aula, mas muita gente que se forma nem chega a entrar em uma. A desvalorização
da profissão é o grande motivo. Para ganhar mais com menos estresse, os
professores acabam fora das escolas.
A conclusão é
de um pesquisador que cruzou os dados de vagas oferecidas e docentes formados
ao longo de duas décadas. O levantamento mostrou que, com exceção da disciplina
de Física, o número de docentes formados daria para atender a demanda no país.
“Não faltam
professores formados então o que está acontecendo é que essas pessoas se formam
e ou não ingressam na profissão ou ingressam e se desestimulam e saem. Enquanto
um professor formado em nível superior ganhar metade do que ganha um
economista, do que ganha um advogado, do que ganha um jornalista, quer dizer,
não tem como atrair a pessoa para a profissão”, afirma o pesquisador da USP
Marcelino de Rezende Pinto.
Para o novo
ministro da Educação a valorização do professor passa por aumento de salário.
“Se você não
tiver salários com perspectiva de aumento de salário, você não vai ter as
melhores vocações se dedicando ou escolhendo o magistério como sua profissão”,
conclui o ministro da Educação Cid Gomes.
O piso da
categoria para 40 horas por semana, passou este ano de R$ 1.617 para R$ 1.917.
Mas, para a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, deveria ser de
pelo menos R$ 2.900. Sem falar que nem todos os estados pagam o que a lei
determina.
O resultado é o abandono da profissão. Oferta de emprego em empresas e bancos não falta.
O resultado é o abandono da profissão. Oferta de emprego em empresas e bancos não falta.
“Eles vivem
batendo na sua porta, oferecendo salários muito atraentes e que acabam levando
muitos colegas da física para outras áreas”, conta o estudante de Física Carlos
Otobone.
Mas é na sala
de aula que os bons professores precisam estar. Disso ninguém tem dúvida.
“Temos que
pensar de fato em uma política integrada que tem como elemento central o
professor porque o pessoal discorda de tudo, mas há um consenso: o professor
faz a diferença”, diz Marcelino.
Texto em PDF:
Disponível em
< http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/02/aumenta-o-numero-de-professores-que-abandonam-salas-de-aula.html
> Acesso dia 26 de março de 2015.

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