Ciência - Mundo Científico –
Uma estratégia
revolucionária para combater o câncer: manter o tumor vivo
Por Super
Interessante
03 de março de 2016
Uma pesquisa com ratos deixa os cientistas com a pulga atrás da
orelha: será que todo a lógica por trás do tratamento convencional do câncer
está errada?
Dentro de um câncer, há várias células competindo entre si.
O jeito típico de tratar câncer é declarar guerra: atacar os tumores
com a maior violência que o paciente puder aguentar, de maneira a eliminar
tantas células malignas quanto for possível. Pois cientistas do Centro
Moffitt de Câncer, na Flórida, resolveram
tentar algo radicalmente diferente com ratinhos que sofriam
de dois tipos de câncer de mama: usaram doses pequenas de medicamentos, de
maneira a matar apenas algumas células cancerosas e deixar outras vivas. Aí, foram
lentamente diminuindo ainda mais a dose.
A surpresa veio
em seguida: os ratos tratados dessa maneira viveram muito mais do que os que
enfrentaram a quimioterapia convencional. 80% dos bichinhos que experimentaram
a nova abordagem tiveram seus tumores tão reduzidos que puderam
interromper o tratamento, enquanto que os ratos que experimentaram altas doses
de quimioterapia não apresentaram redução alguma nos tumores no longo prazo.
Foi apenas uma
única pesquisa, e envolvendo ratos. Mas o resultado surpreendente colocou uma
pulga atrás da orelha de todo mundo: será que estamos fazendo tudo errado no
tratamento do câncer? Será que deveríamos parar de tentar liquidar os tumores
e, em vez disso, usar sutileza para mantê-los sob controle?
Os cientistas da Flórida acham que sim - e
eles se baseiam na teoria da evolução para afirmar isso. Hoje em dia, tratamos o tumor como um inimigo que deve ser atacado com o máximo de força bruta.
"Tendemos a ver o câncer como uma competição entre o tumor e o hospedeiro,
mas, quando olhamos dentro do tumor, o que vemos é que as células cancerosas
estão competindo umas com as outras", disse Robert Gatenby, o líder da
pesquisa, numa entrevista
à revista Time. Ao atacarmos o tumor todo, o que acontece é
que matamos a maioria dessas células. Só que as que sobram são justamente as
resistentes ao tratamento. O problema é que elas podem em seguida voltar a se
multiplicar: e com isso o tumor ressurgirá, dessa vez totalmente resistente à
quimioterapia.
O método
desenvolvido pela equipe de Gatenby baseia-se em modelos de computador semelhantes
aos utilizados por agrônomos que fazem controle de pragas. Em vez de dar um
tiro de canhão na plantação inteira, o que eles fazem é um ataque mais sutil,
que reduza a população das pragas, mas não extermine todas aquelas que são
sensíveis ao inseticida. Assim, eles sabem que poderão planejar um novo ataque
caso a infestação volte a aparecer.
É exatamente o
que foi feito com os ratinhos: as doses baixas de quimioterapia mataram algumas
células do câncer, mas deixaram outras vivas - e não apenas aquelas que são
resistentes. Dessa maneira, o tumor não fica resistente ao tratamento e vai
lentamente diminuindo de tamanho - e também de periculosidade. Num
primeiro momento, essa nova abordagem não reduz drasticamente o tumor, mas com
o tempo ela torna mais fácil mantê-lo sob controle. Talvez o tumor nunca
desapareça completamente - da mesma maneira que muitos fazendeiros aprendem a
conviver com pequenas populações de predadores comendo suas plantações - mas
ele não mata o paciente.
Texto em PDF:
Disponível em < http://super.abril.com.br/ciencia/uma-estrategia-revolucionaria-para-combater-o-cancer-manter-o-tumor-vivo
> Acesso dia 03 de março de 2016.

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